O discurso ambiental alimentou o mito da natureza intocada pelo homem durante muito tempo, e mesmo na atualidade ainda é comum referir-se à "sustentabilidade" deslocando-se do "urbano". Essa pesquisa enriquece essa discussão no tocante ao fenômeno da urbanização e sua relação com a gestão ambiental nas áreas protegidas. Em Santana do Riacho, no distrito de Cardeal Mota, encontram-se essas evidências empíricas nas "áreas protegidas" da Serra do Cipó. A Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira e o Parque Nacional da Serra do Cipó localizam-se na Serra do Espinhaço, com acesso principal pela rodovia MG-010, a cerca de 100 km de Belo Horizonte. Comumente presencia-se problemas sócio-ambientais nessa região, destacando-se: a questão fundiária associada à especulação imobiliária; o lixo gerado e dissipado pelo local, a ausência de uma rede de esgoto com tratamento dos efluentes líquidos, a falta de acompanhamento das hospedarias e áreas de camping que abrigam em épocas festivas mais turistas do que o suportado, contribuindo para a dilapidação do meio físico, entre outras formas de poluição. É nesse clima de litígio, diante de um discurso de preservação e uma prática predatória, que cada uma das partes possui sua própria razão, sob cada "lógica". Os atores sociais lidam e ajustam-se com esses problemas e muitas políticas adotadas são à revelia de qualquer trabalho científico, já que por enquanto existem poucas pesquisas sobre este tema. Este processo movimenta e acumula rendas e problemas, mesmo lá, "no mato", os conflitos tidos como urbanos também se manifestam, associados tanto aos interesses divergentes em termos de uso do espaço, quanto a conflitos entre os modos de vida mais tradicionais e outros mais modernos, típicos das cidades. Tudo se mistura num mesmo espaço e tempo. Qualquer distrito, por menor que seja, faz mais do que simplesmente ocupar um território, ele produz e reproduz processos sócio-espaciais, que se materializam ao longo do tempo. Para compreender esses processos e os conflitos inerentes na formação do "tecido urbano" é necessário desvendarmos os modos historicamente construídos. No que se refere aos procedimentos metodológicos, foi realizada uma revisão da literatura científica, em torno dos conceitos de sustentabilidade, qualidade de vida, justiça sócio-ambiental, entre outros. Foi resgatado as referências histórico-geográficas de Santana do Riacho para compreender a (re)produção do espaço urbano e os problemas sócio-ambientais vividos na atualidade. Neste percurso, foi sintetizado como ocorreu o surgimento da sociedade urbano-industrial e suas repercussões no Estado brasileiro e os reflexos em Santana do Riacho. Posteriormente, foi adicionado o discurso ambiental à questão urbana, inclusive com referências do próprio ordenamento jurídico. O debate da questão conceitual, a visão antagônica de meio ambiente natural e meio ambiente construído, construiu a tese que o urbano é um processo infinitamente maior e que engloba o próprio discurso ambiental. Busca-se em linhas gerais explicar criticamente de que forma a urbanização ocorre no entorno das "áreas protegidas" da Serra do Cipó e como são incorporados (ou não) os discursos ambientais, legitimamente aceitos pelo senso comum. Em Santana do Riacho fica explicita a vulnerabilidade das instituições estatais para tudo isto. Outras localidades já compreenderam que o preço da degradação urbana é muito alto e não pode ser pago com os direitos coletivos dos cidadãos. Apesar da gestão compartilhada, com participação popular, necessitar de muitos aperfeiçoamentos (inclusive em termos de sua real implantação em Santana do Riacho), constitui ainda um caminho possível de mudança social. Assim, com o fortalecimento da gestão coletiva, acredita-se numa sociedade mais justa!