DINÂMICA URBANA E PICHAÇÃO: Entre preto fosco e tons de concreto, há quem prefira outras cores
As relações entre identidades e lugares na cidade se fazem notórias em aproximação ao fenômeno da pichação e conseguem ir além dessa dimensão, uma vez que o circuito perpassa por diversas faixas etárias, classes socioeconômicas, variados comportamentos e assimilações. O que se faz preocupante nesse cenário pouco deveriam ser as reparações de suas intervenções concretas no concreto. Mais atenção merece a violação física e moral, os abusos de poder e o reforço de estigmas sociais conferidos mutuamente. As formas de opressão e os aspectos de alteridade, assim, são elementos que avigoram as discussões sobre a prática pelos pressupostos das identidades em suas conexões às interações sociais e relações de poder, que no contexto urbano, em todo lugar, pode se fazer pelos dominantes e dominados. Meu objetivo nessa pesquisa é caracterizar, em termos identitários e topográficos, a dinâmica urbana conexa ao circuito da pichação em Belo Horizonte. Na tentativa de explanar tal compreensão insiro abordagens teóricas interdisciplinares e discorro sobre as relações entre as temáticas identidade e lugar na cidade. A partir do paradigma interpretativista e da estratégia metodológica qualitativa foram coletados dados primários e secundários sobre o circuito da pichação em Belo Horizonte, os quais contemplaram entrevistas com representantes da municipalidade, sociedade e pichação na capital mineira, além de documentos oficiais e observações diretas e indiretas dos lugares da cidade, contemplados pelo Conjunto Arquitetônico da Pampulha; Complexo da Lagoinha; e Viaduto Santa Tereza. Após organização, o material foi analisado conforme os elementos da análise do discurso em sua vertente francesa, junto aos quais também foram agregados notas de campo e dados iconográficos a fim de complementar a análise dos relatos e das observações de campo. Os principais resultados sugerem que a dinâmica urbana conexa a pichação em BH se caracteriza por práticas organizativas de controle e resistência e apelos identitários e topográficos, dimanantes das estratégias definidas para o combate à pichação a partir do programa municipal Movimento Respeito por BH. As diversas interações identificadas correspondem a arranjos organizacionais entre os agentes sociourbanos, que, em diferentes posições, ordenam e subvertem a organização da cidade. Os discursos variam, assim, em diferentes pontos de vista, que em determinado prisma combatem a pichação, por meio de ações de revitalização do espaço urbano; discursos de respeito ao bem e patrimônios público e privado; e ensaios de controle da cidade e seus cidadãos. De outro ângulo, as práticas de resistência ao ordenamento citadino, não estabelecido em vias horizontais de participação popular, se orientam sob discursos que desconsideram a preferência de outros grupos da sociedade, fixando e impondo as escritas de rua pela cidade e pelos muros particulares, por exemplo. Conclui-se, ainda, sobre a intensificação da insurgência junto aos pichadores e demais indivíduos que representam a prática na cidade, a qual se forma mediante a arbitrariedade da administração pública municipal e diante da decadência alteritária, característica das sociedades contemporâneas.