Atualmente, os projetos sociais de ensino de música têm um valor socialmente reconhecido, sendo promovidos por instituições públicas e/ou privadas, bem como pela mídia hegemônica. Entre as diferentes justificativas para o financiamento e a promoção dessas iniciativas, vemos, com frequência, a ideia de que o ensino de música oferecido por projetos sociais tem um poder transformador. Nesta pesquisa, nos propomos a questionar a visão que exalta os projetos sociais de ensino de música resumindo-os a seus aspectos positivos atuantes na vida social. Acreditamos que, no entanto, esse conjunto de ideias encobre complexidades e contradições que precisam ser desveladas. Assim, entendendo as lutas da sociedade civil como imprescindíveis para, no curto prazo, promover avanços nos direitos sociais e, em médio e longo prazos, transformar a ordem estabelecida, esta pesquisa foi desenvolvida, colaborativamente, com trabalhadores/as da Casa Amarela, instituição do "terceiro setor" que atua no alto do Morro da Providência, na cidade do Rio de Janeiro. O objetivo principal foi estabelecer uma relação entre aspectos micro e macrossociais, para discutir, criticamente, potências e limites do ensino de música em projetos sociais. Concluímos, a partir dos debates travados com os dados deste campo etnográfico, que as trajetórias de vida do/as participante(s) da pesquisa apontaram para a relevância dos projetos sociais – quando promotores de um espaço de acolhimento para a construção de pensamento crítico e de sentidos de solidariedade – na promoção de mudanças positivas nas vidas de pessoas e grupos. Entretando, ao observarmos os dados da precarização do trabalho que emergiram do campo etnográfico em questão, concluímos que eles representam uma contradição desses projetos, uma vez que esse aspecto é inerente ao "terceiro setor", entendido aqui como uma expressão do processo global de avanço da agenda neoliberal. Nesse sentido, a produção de consenso se apresenta como um caminho que justifique, socialmente, a implementação dessa agenda.