Ocupações de sem-tetos e psicologia do trabalho: como construir origamis interventivos?
Esta dissertação tem como objetivo compreender as abordagens epistemológicas e metodológicas de intervenção encontradas tanto na psicologia do trabalho quanto nas práxis dos movimentos sociais que podem auxiliar no desenvolvimento do poder de ação dos coletivos de duas ocupações do Movimento dos Sem-Teto no Rio de Janeiro: Zumbi dos Palmares e a Chiquinha Gonzaga. Essa questão central foi pesquisada através da pesquisa bibliográfica acerca desses dois domínios, descreveu-se o pensamento de autores brasileiros acerca da conjuntura que possibilitou o surgimento dos movimentos sociais no Brasil e a práxis utilizada pelo clube das mães, movimento social dos anos 80 de São Paulo. Em seguida, analisou-se como a organização do trabalho se dava nas ocupações e enfocou-se o trabalho nas mesmas como atividade coletiva, através de abordagens da psicologia do trabalho francesa, principalmente a psicodinâmica do trabalho e a clínica da atividade. Estabeleceu-se um fio condutor que ligava os movimentos sociais e a psicologia do trabalho: a questão da experiência. De um lado, as metodologias de pesquisa-intervenção derivadas de Oddone e colaboradores (1986) valorizavam a experiência do trabalhador. Essas pesquisas conduzem o trabalhador a um processo de formação, onde o conhecimento sobre o meio visa identificar as novicidades, ou seja, aquilo que adoece no trabalho, e se organizar, planejar e efetivar lutas e ações contra isso. Por outro lado, a experiência de participar de uma ocupação numa metrópole contemporânea, em que há organização e poder popular, é também um processo de formação política. Essa formação produz um certo tipo de conhecimento e ação sobre o meio, que podemos denominar de política, junto com Eder Sader (1988), pois visa a percepção e análise da novicidade do meio social, a organização coletiva e a efetivação de uma luta para transformar essa novicidade. Desse modo, pode-se considerar que o trabalho de apoio nas ocupações deve se basear na colaboração entre a experiência dos ocupantes e o conhecimento formal dos apoiadores, na construção de dispositivos de produção de conhecimento e transformação: as comunidades ampliadas de pesquisa.