Clínica da identidade: um estudo sobre o sofrimento psicossocial coletivo
Constitui-se o foco desta pesquisa o processo de construção de identidades com sentido emancipatório de moradores de uma vila tombada pelo patrimônio histórico a nível federal, estadual e municipal, a vila de Paranapiacaba ; inseridos num contexto de intenso sofrimento psicossocial, no qual figura uma incidência significativa de transtornos do pânico, depressão e casos frequentes de suicídio. Vila-ferroviária de um passado áureo, administrada pela empresa inglesa São Paulo Raiway, responsável pelo desenvolvimento econômico do estado de São Paulo, com uma malha ferroviária considerada a mais rentável da América Latina e uma das mais rentáveis do mundo, entrou num período de decadência provocada por uma série de medidas políticas e econômicas desencadeadas por uma questão geopolítica a desvalorização do café produto principal de exportação. Permaneceu num estado de absoluto abandono e desvalorização marcados pela ausência e falta de projetos da administração da Rede Ferroviária Federal SA à aquisição pela Prefeitura Municipal de Santo André, a qual se apresenta num papel fomentador e articulador defendido em seu discurso que visa o protagonismo e a participação popular para um novo projeto de identidade para a vila de Paranapiacaba uma Vila-Turística . Para atender aos objetivos da pesquisa, elaboramos três análises: a primeira dos aspectos históricos, geográficos, econômicos e sociais da vila, através de pesquisas acadêmicas desenvolvidas na região e literatura pertinente; localizada na primeira parte da pesquisa indicada como percurso histórico. A segunda análise, apoiada em pesquisas e literatura concernente atravessada pelas contribuições empíricas, deu-se sobre a proposta e possibilidade de construção do novo projeto de identidade de uma vila turística com possíveis desdobramentos para a construção de novos projetos de identidade para os moradores da vila; inserida na segunda parte deste trabalho definida como percurso teórico-empírico. A terceira análise, fundamentada na proposta teórica de identidade de Antonio da Costa Ciampa, corroborada por autores da literatura especializada da área, articula-se com os dados empíricos completando a análise da clínica da identidade, assim definida nesta segunda parte do percurso teórico-empírico. O material empírico foi obtido através da análise da narrativa de 11 histórias de vida de moradores da vila, novos e antigos, de formação profissional diversa, em diferentes faixas etárias. Os resultados da pesquisa apontaram que os moradores da vila não dispõem de possibilidades concretas para a construção de uma nova identidade com foco no turismo, mas o discurso público instrumentalizado e legitimado por uma lógica racional-finalista se assevera de uma Política de Identidade de reconhecimento perverso para manter a estrutura social adequada a seus fins a construção de uma pretensa identidade para a cidade (vila) de Santo André, tendo como párias deste processo os moradores da vila de Paranapiacaba, ganhando expressão máxima nas inúmeras ações de reintegração de posse ocorridas quando da compra da vila em 2001. A análise da literatura especialidade, pesquisas e material empírico sobre a possibilidade de construção de uma identidade exclusivamente turística mostra-se inócua e frágil, tanto pela forma de participação do poder público com o segmento ter se mostrado despreparada, quanto pela dificuldade de se manter a economia local sustentada num único segmento, sendo recomendável o investimento em novas propostas de desenvolvimento econômico social de segmentação plural, abrindo espaços para a diversidade vocacional dos moradores da vila. A ausência de reconhecimento da necessidade de autonomia, tem sido o fio condutor do sofrimento expresso pelos moradores da vila que resistem através deste sofrer em assentir às personagens-objetos que lhes são atribuídas; e tem se mostrado capaz de provocar uma série de reações somáticas, psíquicas e comportamentais, pois a construção da personagem-doente pode significar, para muitos, a única possibilidade de dar algum sentido às suas identidades-heterônomas, apegando-se a um sofrimento com sentido talvez superior frente a um vazio existencial desprovido de sentido que traz à reminiscência da morte - mas que ainda é não-vida. Os entrevistados também apresentaram a expressão de uma luta por reconhecimento da construção das personagens morador-empreendedor-comercial, morador-que-deseja-participar e morador-empreendedor-social, nas esferas jurídico-moral e estima-social, no entanto, esta luta não está articulada numa proposição capaz de identificação dos anseios emancipatórios/regulatórios efetivos para o reconhecimento da questão central que sustenta a mesmice identitária a ausência de autonomia entendemos que a mudança da personagem morador-permissionário para personagem morador-proprietário, seria capaz de demarcar a alterização necessária para o projeto de construção e reconhecimento de uma identidade humana, necessária para a elaboração efetiva de um sofrimento psicossocial coletivo.