Desde a virada do século, espetáculos da Broadway, em Nova York, passaram a ser largamente produzidos em São Paulo. No intervalo de pouco mais de uma década, um sistema organizado de produção de musicais instaurou-se na capital paulista. Esta tese tem como objetivo investigar alguns trânsitos teatrais entre essas cidades no início do novo milênio. A pesquisa analisa as formas de "tradução" e de re-significação presentes em tais rotas a partir da maneira pela qual intérpretes - atrizes e atores - produziam, atualizavam e negociavam a noção de diferença nos bastidores. O trabalho adotou duas grandes estratégias. Primeiro, realizei uma investigação documental - baseada em fontes primárias - capaz de identificar os condicionantes sociais, econômicos e simbólicos que contribuíram para tornar os musicais teatralmente verossímeis, economicamente rentáveis e socialmente desejados em São Paulo. Concomitantemente, desenvolvi uma pesquisa de campo em escolas de teatro musical em São Paulo e Nova York, onde verifiquei que, no dia a dia do aprendizado, a "interpretação" era fundamental para expressar o mundo emotivo "interno" em cena. Além disso, professores ensinavam que artistas precisavam reconhecer os "tipos" que os seus corpos lhes permitem ser: quem teria o "perfil" para ser protagonista em certos espetáculos e quem não teria. Também realizei entrevistas com atrizes e atores brasileiros que viajaram para os estados unidos com a intenção de se especializarem como intérpretes. Aos poucos, ficou evidente como sujeitos adotavam uma gramática que qualificava os musicais ora como "universais" ora como "particulares". Por um lado, as emoções entre as pessoas seriam universalmente compartilhadas nas duas cidades, permitindo o trânsito das peças. Por outro lado, os corpos de artistas eram particularmente diferenciados e nem todos tinham "perfil" para o trabalho. O itinerário dessas peças entre as cidades foi pavimentado por um conjunto intrincado de argumentos que incluía a potencialidade pedagógica das técnicas cênicas, as vantagens econômicas das produções, a comunhão global de emoções e a conquista de um "sonho" individual de artistas. Em paralelo, em São Paulo, os trajetos sofriam deslocamentos, adaptações, contestações e disputas. Dessa forma, investigo como discursos e práticas acerca da "particularidade" e da "universalidade" foram produzidos, reproduzidos, ressignificados, negociados, e, por vezes, recusados pelos sujeitos. As diferenças e semelhanças apareciam nas relações estabelecidas durante as diversas circunstâncias observadas. A pergunta analítica que atravessa toda a tese é: como as diferenças e as semelhanças apareciam nos trânsitos teatrais entre São Paulo e Nova York?