Este trabalho pretende contribuir para uma melhor caracterização da dinâmica da produção do ambiente construído nas favelas cariocas. Para o desenvolvimento desse estudo, escolhemos a favela da Rocinha, localizada na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. O principal objetivo da pesquisa que realizamos é analisar a evolução do processo de produção da moradia nessa comunidade, ao longo do período compreendido entre meados da década de 30 - quando se observa o início da ocupação da área - e o final da década de 90 - quando muitos a apontam como a maior favela da América Latina. Com este trabalho, pretendemos demonstrar que as práticas de produção do espaço na favela foram se alterando ao longo do tempo, assim como também se modificaram os produtos gerados por essas práticas. Procuramos demonstrar, inicialmente, que, de um espaço predominantemente residencial, a Rocinha evoluiu para um outro, cada vez mais complexo, no que diz respeito ao uso e ocupação do solo. Por sua vez, os padrões construtivos da moradia também se alteraram: construções precárias de madeira convivem atualmente com prédios de alvenaria de seis pavimentos. Ocorreram, também, mudanças no processo de construção da moradia: da auto-produção, envolvendo quase que exclusivamente a família à atuação de pequenas empreiteiras, contratadas por clientes que vivem na favela. Ao longo das duas últimas décadas, verificou-se, ainda, a estruturação de um expressivo mercado imobiliário informal na favela - um mercado que, ao mesmo tempo, se assemelha e se diferencia daquele praticado na cidade oficial. Por último, destacamos que, a partir do final da década de 70, observa-se a ocorrência de uma crescente diferenciação sócio-espacial na Rocinha, originando o surgimento de vários "bairros" - à semelhança do que se verifica em outras grandes favelas cariocas. Com este trabalho, esperamos colaborar para uma melhor compreensão da lógica que ordena a estrutura espacial das favelas - uma estrutura aparentemente caótica, mas que possui uma ordem própria (e, sob vários aspectos, surpreendente) -, como já nos ensinava o arquiteto e professor Carlos Nelson Ferreira dos Santos. Acreditamos, ainda, que a relevância deste estudo está associada, também, à expressão que os chamados assentamentos espontâneos assumiram, nas últimas décadas, no processo de urbanização das grandes cidades do Terceiro Mundo - e, em particular, no Brasil.