Existe, na cidade de São Paulo, um espaço comumente associado a migrantes de origem nordestina, que fazem dele, preferencialmente, um ponto de encontro e lugar de desfrute de diversas formas de lazer com características regionais: é a Praça da Sé. Com efeito, uma rápida observação dos objetos ali vendidos, das atrações oferecidas e do inconfundível sotaque mostra a veracidade da afirmação. Mas é verdade, também, que migrantes de outras regiões, e pessoas nascidas em São Paulo frequentam a Praça da Sé, assim como é verdade que os próprios migrantes nordestinos têm outros lugares de encontro, não tão badalados como esse, mas igualmente importantes para o estabelecimento e manutenção de seus laços de sociabilidade e referência.
O que se quer ressaltar, com essas constatações, é a necessidade de relativizar vinculações excessivamente rápidas e fáceis entre “ lazer” e "migrante” e buscar uma correta interpretação do significado do lazer para a população trabalhadora. Se, de um lado, se insiste na tentativa de catalogar lugares, formas de expressão, etc., exclusivamente ligados à condição de migrante, corre-se o risco de “folclorizar” a questão, ou seja, de associar essas formas de entretenimento e cultura com um modo de vida que já não corresponde àquele que constitui a realidade do dia-a- dia dos seus usuários, na cidade. É preciso associar as modalidades de lazer, os lugares de encontro e as regras de sociabilidade às reais condições de vida da população. Ainda é fundamental identificar que é na troca, no intercâmbio, no contato - e no conflito - que se dá a dinâmica cultural da cidade, e não na tentativa de resguardar uma suposta autenticidade.