Novas tecnologias e meio urbano
Biorretenção: tecnologia ambiental urbana para manejo das águas de chuva
Em caráter experimental, a tese examina o desempenho de sistemas de biorretenção na mitigação da poluição difusa ocasionada pelas águas de chuva. A avaliação dessa tecnologia ambiental urbana partiu da construção de um modelo de manejo dos escoamentos pluviais, utilizando uma matriz orgânica composta por vegetação, solo e agregados para retenção e tratamento inicial localizados. O protótipo, em escala 1:1, implementado na Cidade Universitária Armando Salles de Oliveira (CUASO-USP), São Paulo, SP, é composto por dois canteiros isolados entre si, que recebem as vazões através da sarjeta na via adjacente. Com preenchimentos iguais, os canteiros receberam coberturas vegetais distintas: gramado (G), com uma única espécie de gramínia, e jardim (J), com forrações, herbáceas e arbustos diversos, predominantemente nativos. O experimento foi monitorado por um ano, entre março de 2012 e março de 2013, quando foram coletados os dados referentes ao seu funcionamento e eficiência em sete eventos chuvosos paulistanos. A compilação dessas informações permitiu a análise comparativa da qualidade da água dos escoamentos antes e depois da passagem pelos canteiros. Com recursos da FUNDEP, FCTH e LabVERDE, a pesquisa interdepartamental e interdisciplinar, desenvolvida numa cooperação entre a FAU-USP e a Escola Politécnica-USP, busca oferecer respostas às hipóteses com que trabalha a Arquitetura da Paisagem ao propor soluções naturalizadas de manejo dos escoamentos pluviais em complementação às técnicas convencionais atualmente empregadas nas cidades brasileiras, tomando a cidade de São Paulo como cenário. Como efeito do processo histórico de canalização do seu patrimônio hídrico, ocupação das áreas de várzea e impermeabilização, a população paulistana e da RMSP tem sofrido com enchentes que se agravam com o crescimento urbano e com a intensificação das chuvas. As soluções imediatistas para essa situação crítica seguem a práxis das obras convencionais de engenharia, que segregam a drenagem urbana dos processos ecológicos e hidrológicos e não contribuem para melhoria da qualidade ambiental dos escoamentos antes de destiná-los aos corpos hídricos superficiais, o que agrava o quadro generalizado de poluição dos rios e córregos urbanos. Os resultados do experimento prático atestam o desempenho da biorretenção na mitigação da poluição difusa, com reduções médias das cargas poluidoras acumuladas de 89,94% para o gramado e 95,49% para o jardim, que foi comprovadamente mais eficiente. Aliados ao estudo de tipologias paisagísticas já utilizadas com sucesso em outras cidades do mundo, esses resultados poderão corroborar o processo de transição na infraestrutura de São Paulo, respaldando tecnicamente e cientificamente as soluções investigadas de manejo das águas de chuva através da biorretenção no tratamento dos espaços abertos e na conformação de uma Infraestrutura Verde na cidade.
“Um salve por São Paulo: narrativas da cidade e da violência em três obras recentes”
Trabalho e tecnologia no programa MCMV
Lançado em 2009, o programa federal Minha Casa Minha Vida se tornou o mais efetivo programa habitacional brasileiro desde a extinção do BNH, em 1986. Na iminência de acrescentar 3,75 milhões de moradias ao estoque habitacional do país, o programa é um campo de investigação que permite uma análise abrangente do novo papel do governo federal e municipal na política urbana, bem como do setor da construção civil na política econômica. Na produção para famílias de baixa renda na região metropolitana de São Paulo, o programa é um objeto de pesquisa que permite uma análise focada nas alterações que provoca tanto no trabalho e como na tecnologia da construção habitacional. Quanto ao trabalho, a pesquisa reconstitui tipologicamente os processos de trabalho em canteiros de obras para observar a substituição da manufatura pela industrialização de insumos e pelo treinamento da força de trabalho conforme um novo perfil demográfico e de controle da produtividade. Quanto à tecnologia, a pesquisa acompanha a introdução de novas tecnologias organizacionais em empreendimentos de construção, que são sistemas de gestão de qualidade e de controle de serviços subempreitados que favorecem a concentração de capital e reforçam a segregação urbana nas cidades brasileiras.
Patrimônio: gestão e sistema de informação
O cinema educativo como inovação pedagógica na escola primária paulista (1933-1944)
Esta pesquisa teve por objetivo identificar e analisar as iniciativas do Estado de São Paulo na difusão do Cinema Educativo nas escolas públicas primárias no período de 1933 a 1944. Considerou as finalidades apresentadas para a adoção desta tecnologia de ensino, a infraestrutura para a sua utilização e a divulgação de filmes; buscou constatar a circulação de saberes e indicações pedagógicas para o uso desse recurso de ensino tentando, assim, perceber as práticas escolares. Em meio às transformações ocorridas no período marcado pela modernização do ensino este estudo pretende, ainda, entender a forma pela qual o Cinema Educativo contribuiu para a configuração da cultura escolar paulista. Nesse sentido, procuro atentar para os estudos sobre a história da escola primária dando ênfase à relação entre a cultura escolar, a inovação educacional e a circulação de modelos pedagógicos. O surgimento do Cinema Educativo no Brasil ocorreu nas décadas de 1920 e 1930 durante o movimento em prol da utilização do bom cinema, consolidando-se em 1937, com a criação, em âmbito federal, do Instituto Nacional de Cinema Educativo (I.N.C.E.) que tinha por incumbência coordenar e divulgar as aquisições de caráter técnico, além de fornecer sugestões e viabilizar o funcionamento do Cinema Educativo de forma eficiente e produtiva. Quatro anos depois, em São Paulo, era realizada a Exposição Preparatória do Cinema Educativo no Instituto Pedagógico, por iniciativa da Diretoria Geral de Ensino do Estado de São Paulo, na administração de Lourenço Filho. Ao assumir a Direção do Ensino em São Paulo, em 1933, Fernando de Azevedo retomou as preocupações presentes no Código de Ensino e determinou a utilização do Cinema Educativo nas escolas paulistas. Em 1934, era publicada a Circular n° 24: instrucções sobre o Serviço de Radio e Cinema Educativo, veiculando normas para criação e funcionamento de um serviço especializado. Como contraponto às normas disseminadas pela Diretoria de Ensino, os relatórios elaborados por professores e delegados regionais de ensino do Estado de São Paulo (1933-1944) apontavam problemas enfrentados pelas escolas para incorporação da nova tecnologia, trazendo pistas sobre o uso desta inovação no cotidiano das escolas primárias. Foram muitos os obstáculos encontrados, durante a implementação e manutenção do Cinema Educativo nos Grupos Escolares do interior do Estado de São Paulo. Nos 67 relatórios lidos, ressaltam-se dificuldades na aquisição de filmes e recursos para a compra de equipamentos; problemas com a organização de programas atraentes; falta de salas e equipamentos apropriados, dentre outros fatores. Os custos dos aparelhos eram sanados geralmente pelo recurso às Caixas Escolares ou a doações de particulares. No entanto a necessidade de autorização da Diretoria para efetivação da compra por vezes retardava o processo. A introdução das novas tecnologias demandava também uma revisão dos métodos pedagógicos e uma reestruturação dos espaços e tempos escolares.
Origens e evolução da indústria de máquinas e equipamentos em São Paulo 1870-1960
Esta tese trata das origens e evolução da indústria de máquinas e equipamentos em São Paulo entre 1870 e 1960. As motivações para a pesquisa foram as lacunas na historiografia da industrialização brasileira sobre as origens e evolução da indústria de bens de capital produtora de máquinas e equipamentos. As questões geralmente investigadas pela literatura foram a dependência da importação de máquinas e equipamentos pelo Brasil, baixa participação da indústria de máquinas e equipamentos na indústria de transformação brasileira e a necessidade de implantação de uma indústria de bens de capital pesada com adaptação de tecnologia avançada devido ao seu desenvolvimento tardio. Argumentamos nesta tese que apesar dessas questões serem importantes, seu foco de análise contribuiu para limitar o entendimento da nascente indústria de máquinas e equipamentos nacional, com participação de imigrantes e fazendeiros no final do século XIX. Ao longo do trabalho demonstramos que os efeitos da Primeira Guerra Mundial contribuíram para a redução na importação de máquinas e o aparecimento de várias pequenas empresas, geralmente pequenas oficinas e fundições para reparar as máquinas importadas. Os efeitos mais expressivos sobre o número de empresas fundadas foram de curto prazo, pois muitas das empresas permaneceram ativas por pouco tempo, mas mostramos casos de empresas que surgiram nesse período, cresceram e se desenvolveram, algumas operando até 1960. Os efeitos da Primeira Guerra Mundial foram favoráveis às empresas maiores, principalmente às sociedades anônimas, com a diminuição da concorrência em segmentos mais especializados devido às menores importações de máquinas do exterior. Também mostramos que os efeitos da crise de 1929 afetaram negativamente a indústria de máquinas e equipamentos paulista, mas apresentamos evidências que a diversificação da produção de máquinas para a indústria acelerou-se na década de 1920 e não foi resultado da crise. A recuperação da indústria de máquinas e equipamentos foi rápida e no final da década de 1930 a indústria se modernizou, iniciando a produção regular de máquinasferramenta. Apresentamos dois estudos de caso que ilustram que a indústria de máquinas e equipamentos teve sua origem no final do século XIX, passou por transformações nas décadas de 1920 e 1930 e se fortaleceu na década de 1940. Assim, nossos resultados divergem da periodização mais aceita da industrialização brasileira, que reconhece a importância da indústria de máquinas e equipamentos e de bens de capital somente após a década de 1950.
Mudanças nos uso e preços de terras do Estado de São Paulo - período de 1995 a 2010
Este estudo examinou as principais transformações ocorridas na forma de ocupação do solo em diferentes regiões do Estado de São Paulo, entre os anos de 1995 e 2010, tendo como objetivo geral determinar quais os principais vetores das mudanças observadas nos preços de terras agrícolas. Esse período abrange tanto a fase de retração e desregulamentação do setor sucroalcooleiro, após o abandono do Proálcool, quanto a nova etapa de investimentos que adentraram o setor na última década, visando, principalmente, restituir a cadeia de produção de etanol, oportunamente esteado no calor das discussões sobre combate às mudanças climáticas. Tais investimentos, juntamente com o cenário econômico internacional de preços vantajosos para as commodities agrícolas, dentre elas o açúcar, deram origem a uma nova fase de expansão da lavoura canavieira no estado. Por outro lado, a rápida incursão das culturas agroenergéticas nos espaços agrícolas levantou diversas opiniões exprobatórias, segundo as quais tal avanço pressionaria tanto os preços de terras como os de alimentos. Concomitantemente, o crescimento econômico de países emergentes, durante a segunda metade da última década, impulsionou não apenas a demanda por combustíveis e alimentos (dentre eles, o açúcar), mas também por diversos outros produtos advindos do agronegócio, dentre eles a madeira de reflorestamento, sobretudo para dar sustento à construção civil, e as fibras têxteis, para vestuário. Por fim, a própria expansão das cidades requereu a sua prioridade sobre terras que poderiam ser alocadas para a agropecuária. No encalço dessa série de eventos, esta dissertação teve como objetivos específicos analisar, no universo dado pelos 40 Escritórios de Desenvolvimento Rural do Estado de São Paulo (EDRs), quais os principais determinantes das variações observadas nos preços de terras agrícolas no período considerado, dando especial atenção às expansões canavieira, de áreas de reflorestamento (com eucalipto, especificamente) e demográfica (esta, por sua vez, tida como proxy da expansão urbana nas regiões consideradas). Em consequência dessa investigação, municiada com dados até então inéditos em estudos desse tipo, acabou-se por apreciar a relação ainda pouco explorada entre a aptidão à mecanização e a conformação dos preços de terras. As principais análises, feitas com o uso de ferramentas de gerenciamento de informação geográfica (SIG) e modelos econométricos indicaram uma correlação positiva entre o percentual de áreas com declividade do solo de até 15% (aqui ditas mecanizáveis, de acordo com critérios de mecanização da colheita da cana-deaçúcar) e os preços de terras considerados, sobretudo quando se analisam os efeitos dessa variável na série de valores correspondentes a terra nua de pastagens. Além disso, foram constatados, econometricamente, efeitos positivos da expansão canavieria, do grau de urbanização e do montante de áreas ocupadas com o reflorestamento de eucalipto sobre o preço da terra.
Políticas culturais, tecnologias de informação e democracia cultural: o programa VAI e a constituição da Agência Popular Solano Trindade
Trata-se da análise das estratégias de articulação e comunicação utilizadas por jovens produtores culturais da cidade de São Paulo, de modo particular sob o ponto de vista daqueles organizados em grupos e coletivos culturais localizados em suas regiões mais periféricas. Investigou-se quais relações se estabelecem entre esses coletivos e as redes e circuitos culturais existentes na cidade de São Paulo, e qual o papel exercido pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) nesse processo, concebidas aqui enquanto ferramentas dessa articulação, não seu fim último. O estabelecimento do recorte de ação para a pesquisa partiu da investigação de uma política pública municipal de fomento à produção cultural, desenvolvida na cidade de São Paulo desde 2004, e que vêm sendo responsável por desvelar e dar visibilidade às diferentes manifestações artísticas e culturais realizadas por esses jovens: o Programa para Valorização das Iniciativas Culturais. Dentro do conjunto de projetos suportados com recursos desse programa, optou-se pela realização de um estudo de caso específico uma iniciativa em particular: a implantação de uma agência de fomento a cultura popular, denominada Agência Popular Solano Trindade. Especial atenção foi dada ao processo de elaboração do portal na internet que a Agência lançou no final do ano de 2012, e que se propõe funcionar como plataforma tanto de informação sobre as ações da instituição, suas motivações e objetivos, como de mapeamento dos atores culturais que a integram. Desse modo, pretendeu-se oferecer subsídios para o debate sobre a dinâmica das práticas culturais que se desenvolvem nas bordas da metrópole, e analisar mais detidamente de que maneira uma rede social pode animar e ampliar o desenvolvimento de uma rede sociotécnica, e o papel assumido pelo usuário enquanto parceiro do processo de construção e circulação da informação.
Transparência governamental e accountability: uma análise comparativa da evolução dos portais de informações públicas no município de São Paulo
Impulsionados por mudanças na legislação e pelo contexto de favorecimento de medidas de publicidade, vários órgãos governamentais vêm ampliando o leque de informações divulgadas nos seus portais de transparência. Entretanto, esse movimento não é uniforme certos órgãos têm tendência maior de serem mais transparentes que outros. Este trabalho sugere a montagem de um modelo de avaliação desses portais em relação à variedade, qualidade e acessibilidade das informações públicas cuja divulgação é exigida por lei e aplica-o nos sites da Prefeitura de São Paulo, da Câmara Municipal e do Tribunal de Contas do Município. Foi verificada uma diferença significa na avaliação dos portais entre 2008 e 2013, também desigual de acordo com o órgão. Entrevistas com funcionários dos três órgãos indicam que fatores institucionais específicos como a accountability vertical, a receptividade em relação ao escrutínio público e a fiscalização por órgãos de controle são essenciais para entender a diferença nos estímulos para se ampliar a transparência governamental.