As metrópoles contemporâneas convivem hoje com uma tendência de âmbito mundial de revalorização do seu espaço em Área Central, muitas vezes associada a projetos de revitalização de suas áreas portuárias. Tal requalificação se expressa na criação de novas áreas de centralidade, seja por meio de grandes investimentos em centralidades tidas como decadentes no espaço intraurbano, ou, por meio do fortalecimento de centralidades já existentes, ou ainda, pela eleição de novos espaços que devem se constituir como novas centralidades. As intervenções urbanísticas na Zona Portuária da cidade do Rio de Janeiro sinalizam o processo de requalificação do espaço, em área tida como decadente. Vista pelas autoridades públicas como degradada e abandonada, a área convive hoje com intensa intervenção urbanística, derivada da Operação Urbana do Porto Maravilha.
Projeto dotado de forte legitimidade atualmente, devido à hospedagem dos megaeventos esportivos como a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas de 2016, para os quais a cidade deveria se transformar em um cenário urbano renovado, de grande atratividade e competitividade, adaptado à lógica do capitalismo global.
São muitos os estudiosos urbanos que, em distintas áreas do conhecimento, se voltam para essa temática. Identificam-se, desse modo, aspectos sociais, urbanísticos, paisagísticos, patrimoniais, simbólicos, próprios a essas intervenções, que expressam interesses sociais e políticos diferenciados, que acabam por configurar situações de conflito social, principalmente aqueles ligados à remoção de moradores devido às obras. São assim trazidas ao debate questões sobre a forma como atuam as autoridades públicas, seu distanciamento face aos interesses da população moradora, as transformações de diversas ordens incidentes na área de intervenção, além dos embates políticos e das manifestações sociais contra as obras e intervenções urbanísticas, que constituirão os na ótica das autoridades públicas, os chamados legados para a cidade, o que para muitos moradores, constitui uma herança bastante questionável. Uma reflexão sobre essas questões está nos propósitos do presente artigo, que busca, em especial, avaliar o processo de criação de novas áreas com o estatuto de centralidade urbana em contextos de requalificação socioespacial e os conflitos sociais decorrentes dessa nova configuração.