A memória ancestral de Pai Pérsio de Xangô: expansão e consolidação do Candomblé paulista
Reconstituir a memória de uma das principais lideranças do candomblé de São Paulo implica em registrar a voz de um grupo historicamente discriminado e marginalizado. Nosso objetivo é registrar as histórias de vida em um terreiro, recuperando a memória de seu fundador. Ao registrar essas vozes dos membros dessa comunidade, relacionando suas narrativas ao contexto sociocultural, pretende-se compreender o processo de inserção, expansão e consolidação do candomblé em São Paulo. A conversão considerável de umbandistas para o candomblé, um fluxo quase natural entre os anos 1970 e 1980, empresta características muito próprias a essa religião em São Paulo e inaugura o modelo daquilo que poderíamos chamar de “candomblé paulista”, um movimento com personagens marcantes, cuja memória pode auxiliar na compreensão de um momento fundamental no processo de difusão das religiões afro-brasileiras. As profundas relações entre as duas modalidades mais populares de religião afro-brasileira encontram no trânsito de seus adeptos o fomento que as dinamiza. Ao ouvir as histórias de pessoas do candomblé, particularmente aquelas ligadas à trajetória de pai pérsio de xangô, buscamos um diálogo que proporcionasse mais do que a conceituação de um objeto. Ampliamos o campo de questionamento e reflexão para instigar nossos interlocutores a descobrir, eles mesmos, verdades ou conceitos a respeito de relações e fatos vividos, o que implicava considerar o movimento circular da memória. Compreender esse panorama, no qual pais e mães de santo vêm apresentar seus préstimos em outros estados e passam a disputar clientes num mercado religioso, ajuda a traçar as linhas gerais das mudanças que demarcam os nos candomblés de São Paulo e aquilo que os diferencia dos terreiros mais tradicionais. Olhar para as tradições e visões de mundo preservadas no candomblé nos ajuda atingir uma concepção mais completa do que foi e ainda é a realidade do negro no Brasil e a formatar um conceito de memória ancestral.