“Uma Travesti pode ser advogada?”: O CIStema educacional e o desafio da permanência na escola de travestis e transexuais jovens moradoras da Rocinha, RJ
A presente pesquisa de mestrado versa sobre a escolaridade de jovens travestis e mulheres transexuais. O objetivo do estudo é analisar quais fatores estão envolvidos nos processos de escolarização e expulsão escolar desse público, contrapondo a cisgeneridade como ponto de análise, não só pela pesquisa ser realizada e orientada por pessoas cisgêneras, mas como pela escola ser identificada enquanto um território cis-hetero-normativo. Para entender a cisgeneridade, tomo os estudos de Viviane Vergueiro como base. As jovens colaboradoras da pesquisa são oriundas do programa ViraVida, programa social que ocorre no território da Rocinha, cujo objetivo é atender adolescentes e jovens em situações múltiplas de vulnerabilidades sociais, para que seja possível a inserção social cidadã de suas/seus usuárias/os, por meio da elevação de escolaridade, desenvolvimento psicossocial e inserção produtiva no mercado de trabalho. Foi levantado o histórico de todas as travestis e transexuais ex-alunas do ViraVida e constatado que a maioria delas não permaneceu estudando ou finalizou o ensino médio. Para responder a questão mobilizadora da pesquisa – por que, em sua maioria, essas alunas trans e travestis abandonavam a escola e não conseguiam concluir sua escolarização? –, foram entrevistadas, segundo a metodologia de narrativas de vida, cinco alunas e ex-alunas do programa, travestis e transexuais, e, pelo método de entrevistas semi-estruturadas, quatro gestoras/es cisgêneras/os das escolas nas quais essas ex-alunas estudaram. A revisão bibliográfica dos estudos sobre o tema nas principais bases de dados e a discussão dos conceitos e categorias empregadas na pesquisa, tais como cisgeneridade, travesti, transexuais, abjeção e passabilidade, privilegiou autoras trans e travestis, como Luma Nogueira de Andrade, Jacqueline Gomes de Jesus, Megg Rayara Gomes de Oliveira, Adriana Sales, entre outras, na tentativa de não endossar uma epistemologia cis, promovendo diálogo com Foucault, Butler, Bordieu e Berenice Bento. O estudo das categorias de análise, inserção, acolhimento, permanência e expulsão na/da escola permite contrapor a visão das colaboradoras ex-alunas e suas respectivas gestoras, alinhadas à discussão de políticas públicas e direitos humanos na educação. Emerge também uma necessidade de problematizar o conceito de mobilização para educação, a partir dos estudos de Charlot. Entre os processos envolvidos na dinâmica de permanência e expulsão da escola, encontram-se a experiência de ter passabilidade cis para se encaixar no mundo e parecer “normal”, os problemas e estratégias para reconhecimento do nome social e uso do banheiro, o espaço escolar enquanto sociabilização, as situações de exclusão e inclusão, a EJA como uma alternativa de continuidade dos estudos e as doloridas vivências escolares cujos olhos cisgêneros não puderam apreender. Mesmo que parte da gestão/direção escolar se esforce na tentativa de construir uma ação de inclusão, essa tentativa não considera como parte problemática e causadora de desconfortos as características estruturais do pensamento cis-heteronormativo.