Santos, município do litoral paulista que responde como cidade-polo da Região Metropolitana da Baixada Santista, vem se constituindo como um território de migrações internacionais. Esse processo se intensificou nas duas últimas viradas de século, isto é, nas transições do século 19 para o século 20 e do século 20 para o século 21. Na primeira virada histórica, no contexto da economia cafeeira paulista, a imigração em massa para o Estado de São Paulo justificou a permanência de imigrantes de distintas nacionalidades, sobretudo as europeias, no território santista em transformação, que assumiu a função estratégica de um dos nódulos do ciclo agroexportador do café, por conta da sua estrutura portuária. Na virada do século 20 para o século 21, revigoraram-se os fluxos migratórios internacionais com destino a Santos, no panorama da reestruturação produtiva em curso e da posição ocupada por essa cidade, sede do maior porto da América Latina e dinamizada por negócios em torno do turismo e do petróleo, na economia nacional e global. Esses recortes temporais constituem o pano de fundo que orienta esta pesquisa, que tem como objetivo compreender as dinâmicas populacionais que contribuíram para o processo de configuração do território santista de migrações internacionais, em duas viradas de século. Especificamente, pretende-se analisar a participação dos imigrantes na composição e recomposição social desse território multicultural, cujo destaque no panorama das migrações internacionais no Brasil mantém-se no século 21. A metodologia adotada respalda-se na revisão da literatura dos temas centrais desta investigação e no levantamento da historiografia disponível sobre a formação urbana de Santos, nos seus aspectos econômicos, demográficos, políticos, culturais. Além disso, recorre-se à análise dos dados disponibilizados por órgãos governamentais e institutos de pesquisa a respeito da caracterização da população santista ao longo dos dois últimos séculos. Conclui-se que as migrações internacionais foram decisivas para a formação socioespacial de Santos, sendo impossível compreendê-la sem focalizar a contribuição dos imigrantes nessa dinâmica, em especial nas viradas do século 19 para o século 20 e do século 20 para o século 21. Na primeira transição, Santos já se consolidara como um território multicultural no Estado de São Paulo, passando por um processo de recomposição da sua estrutura populacional na passagem do século seguinte. As marcas materiais e simbólicas da sua "face" multicultural são perceptíveis nos cotidianos processados nesse território de diversidades, que congrega, concomitantemente, a memória das migrações inscrita no seu solo e retroalimentada, sobretudo, pelas centenárias associações étnicas e os atuais fluxos de imigrantes, de distintas origens e trajetórias, recém-chegados a esse território.