Antropologia
Cartografia social, terra e território
Cartografia social, terra e território é o terceiro título da coleção Território, Ambiente e Conflitos Sociais, pautada por pesquisas do Laboratório Estado, Trabalho, Território e Natureza (ETTERN), do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/ UFRJ). Uma coleção-observatório dos debates em torno das tramas territoriais e dos modos como a prática cartográfica vem redefinindo os engendramentos espaciais e sociais contemporâneos. Na abertura do livro, Henri Acselrad expõe um conjunto de mapas sobre a “Distribuição espacial das experiências de mapeamento” realizadas no Brasil entre 1992 e 2012. Uma miríade de marcadores passam a povoar a figuração do território brasileiro e desvelam de forma panorâmica a emergência da cartografia social, enquanto um campo em construção, há aproximadamente 15 anos. A apresentação do livro revela a envergadura sociológica dos processos mobilizados nesse ínterim e, ao percorrer a obra, observa-se a polifonia das narrativas pelas vozes de sujeitos da terra e do território, de teóricos e de representantes políticos – o que constitui a face antropológica de algumas das 284 experiências identificadas pelo projeto de pesquisa “Experiências em cartografia social e mapeamento participativo”.
Coexistir na fronteira: notas de um antropólogo sobre a trajetória de um grupo de jovens em meio a uma guerra entre a comunidade e o tráfico de drogas
Em nome de uma antropologia que busque analisar as relações de poder-resistência a partir da coexistência entre os vários componentes dentro de diferentes territórios urbanos e que vise fazer emergir as várias formas de violência presentes nas relações cotidianas é que me propus a realizar esta pesquisa. Em minha pesquisa de Mestrado intitulada de Cartografia das resistências: uma análise antropológica do Pavilhão Oito da Casa de Detenção de São Paulo onde inferi que tal sociabilidade pode também ser entendida como sendo o produto de um intrigante jogo político entre os detentos e as forças do Estado, gerando hierarquização dos sujeitos envolvidos, redes de corrupção e extorsão, e por fim células criminosas, onde não só farão parte detentos, mas também aqueles que deveriam reeducá-los. Buscando novos prismas para a discussão da violência urbana, me proponho nessa pesquisa de doutorado dar continuidade e problematizar como se deu a mudança de sociabilidade entre um grupo de jovens pichadores chamados Korja, considerados rebeldes, da Vila Brasilândia e a comunidade na qual viviam. Entendo que coexistência dos jovens moradores dos bairros periféricos das grandes cidades se constrói, de modo geral na rua, as esquinas se transformam em pontos de encontro e lazer. É aí que constroem as amizades e os jovens buscam construir identidades coletivas, ao mesmo tempo em que aprendem a conviver com a violência urbana e a lidar com os aparelhos repressivos. No que diz respeito, mais especificamente a estes jovens da Vila Brasilândia, o que desperta meu interesse é compreender como se deu a transformação tanto da sociabilidade, como da maneira que a comunidade os percebia. Se de início esta os via como aquilo que de fato eram, jovens rebeldes e sonhadores, aos poucos passaram a ser vistos como indivíduos perigosos e indesejados que haviam se transformado num problema e num peso para a comunidade. Essa mudança se deu progressivamente, a partir do momento em que eles passaram a ser aliciados pelo tráfico que buscava dominar a comunidade. Em um primeiro momento esses jovens se viram no centro de um fogo cruzado, onde por um lado, a comunidade tentava cooptá-los e recuperá-los através de práticas normalizadoras, e do outro, os traficantes que tentavam seduzí-los e aliciá-los, fato que terminava freqüentemente com a morte de alguns deles
Dissecando um “novo” mercado ilegal?
Resenha de Stolen Cars: A Journey Through São Paulo's Urban Conflict, John Wiley & Sons, London, 2021, de G. Feltran et al.
Mobilidade e cidade: epistemologia e pesquisa
O artigo explora a mobilidade, tratando das características epistemológicas e das implicações metodológicas de algumas novidades que o chamado mobilities turn tem trazido para a pesquisa social, notadamente para a investigação de processos urbanos. Reflete-se sobre a dimensão inovadora dos estudos atuais em mobilidades, os quais se expandem para além da sociologia e da antropologia e se situam sobretudo na geografia. Em seguida, é considerada a definição do social e de espaço-tempo epistemologicamente compatível como a virada da mobilidade. Por fim, as consequências dessas posições para a pesquisa em cidades são exploradas para se concluir que elementos da tradição de pesquisas urbanas convergem para esta cena do presente, revelando afinidades epistemológicas e conceituais com modos contemporâneos de pensar a cidade.
Elites em disputa por mercados populares: concorrência e confiança na economia (i)legal de veículos
Motta, L. D., Simão, L. G., Fromm, D., & Alcantara, J. (2023). Elites em disputa por mercados populares: concorrência e confiança na economia (i)legal de veículos. Tempo Social, 35(1), 45-66. https://doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2023.204350
O artigo analisa as disputas entre elites para expansão de mercados ligados aos veículos rumo a setores populares. Tomamos dois casos como entrada empírica: o setor de leilões de carros usados, que opõe elite tradicional e elites financeiras globais; e as disputas entre seguradoras tradicionais e elites emergentes ligadas às associações de proteção veicular. Argumentamos que a recorrência do uso do termo confiança nesses conflitos evidencia a centralidade do crime, como fato ou ameaça, para a construção e funcionamento de mercados legais de veículos e produtos a eles ligados. O artigo é baseado em entrevistas e na observação participante em eventos; conferências e entrevistas disponíveis na internet; materiais secundários produzidos pelos atores engajados nas disputas; e projetos de lei e legislações.
Quase lá: a copa do mundo no Itaquerão e os impactos de um megaevento na socialidade torcedora
Em meio às controvérsias políticas e esportivas locais, ampliadas no nível global por ocasião do megaevento da Copa do Mundo de futebol está sendo erguido em Itaquera, zona leste da capital paulistana, o estádio-sede do Sport Club Corinthians Paulista, arena escolhida para a abertura do grande evento em 2014. Este artigo tem por finalidade apresentar os primeiros resultados da pesquisa de campo que venho realizando no entorno da construção do referido estádio e o ponto de vista privilegiado é perceber o modo como os torcedores produzem e constroem os alicerces simbólicos sobre a edificação monumental. Meu enfoque é retomar as dinâmicas do torcer numa metrópole como São Paulo, onde o exercício contrastivo torcedor captura um momento em que um megaevento orienta em boa medida as disputas pelos espaços da cidade e as redefinições de uma forma de torcer denominada corintianismo.
Entre a sepultura e a cadeia: um olhar etnográfico sobre a conversão religiosa de usuários de crack em São Paulo
Por meio de pesquisa etnográfica realizada na Cracolândia paulistana (2011-2015), este artigo aborda a conversão religiosa atrelada ao do mundo do crime e das drogas. Através da jornada de um ex-usuário de crack que se torna missionário batista, o artigo chama a atenção para como o medo da morte e do encarceramento, impostos por políticas criminais e policiais-repressivas são vetores importantes para a compreensão das escolhas e constrangimentos que norteiam o processo de conversão religiosa. Argumento que, da perspectiva de meus interlocutores, essas ameaças constantes somadas à profissionalização e oportunidades (tanto econômicas quanto afetivas) geradas pela carreira missionária apontam para a conversão como uma alternativa frente à sepultura e à cadeia, sendo uma relevante estratégia para “sobreviver na adversidade”.
Cadeia ping-pong: entre o dentro e o fora das muralhas
O presente trabalho busca articular Centros de Detenção Provisória (CDPs) e a região estigmatizada como cracolândia, tendo em vista as trajetórias de sujeitos que circulam – em geral, vão e voltam – entre o dentro e o fora das muralhas institucionais. O intuito é refletir sobre os nexos que articulam esses dois territórios urbanos, demonstrando os possíveis desdobramentos e efeitos dessa “movimentação ping-pong”. De um lado, trata-se de evidenciar que a prisão, sobretudo a prisão provisória, não deve ser lida apenas do ângulo do confinamento, mas também como um dispositivo que, quando visto na chave do entra e sai, “faz circular” toda uma população vista como indesejável e considerada “perigosa”. De outro, mas em conexão estreita com o primeiro ponto, importa prospectar os efeitos dessas entradas e saídas no tecido urbano da cracolândia, assim como descrever o rebatimento desse movimento incessante na reconfiguração da experiência interna ao próprio cárcere. Questionar como e por que isso ocorre, com quais sujeitos e com quais efeitos é o que nos mobiliza no presente texto.
O Espaço da Penitenciária de Araraquara
Análise da organização do espaço na penitenciária de Araraquara pelos arquitetos e administradora, e da percepção deste espaço pelos reclusos.O método utilizado foi a observação in loco e da aplicação de questionários com perguntas abertas.Chegou-se á conclusão de que esta organização do espaço nesta penitenciária isola os reclusos da sociedade, isola os reclusos uns dos outros e os expõe à equipe dirigente, dificultando a formação de grupos.