Setor informal/Informalidade
Entre o "fogo cruzado" e o "campo minado": uma etnografia do processo de "pacificação" de favelas cariocas
| No final de 2008, uma nova forma de policiamento em favelas cariocas alterou profundamente a rotina e a sociabilidade dos seus moradores. Essa modalidade de policiamento foi chamada de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). O objetivo central dessa tese é analisar os impactos e as consequências que esse projeto teve sobre a vida dos moradores dos territórios pacificados . Baseado em um trabalho de campo de quase quatro anos nas primeiras favelas pacificadas , a saber, Santa Marta e Cidade de Deus, eu tomo UPP como um objeto problemático permanentemente investigado por aqueles que foram por ela afetados diretamente. Essa tese é, nesse sentido, uma investigação que incide sobre as investigações daqueles que viveram a UPP como problema. Como conclusão, sustento que um dos principais impactos da implementação das UPPs foi uma mudança na fenomenologia do habitar da favela, mudança essa que se deu sobretudo pela emergência do que chamo de regime de campo minado . A partir disso, sustento que o ambiente dessas favelas após a pacificação passou a ser caracterizado pela coabitação, com oscilações intensivas e arranjos criativos, entre a antiga lógica do fogo cruzado , baseada no medo constante dos tiroteios, e a lógica do campo minado , baseada no monitoramento constante do ambiente e no medo de possíveis contaminações , geradas pelo contato entre moradores, policiais e traficantes que agora dividem o mesmo território 24 horas por dia. |
A firma é forte: trabalho, crime e consumo nas redes de sociabilidade da violência urbana
| Esta tese argumenta que aquilo que Alba Zaluar chamou de ética do provedor , quer dizer, a prática em torno da qual o trabalhador pobre urbano e favelado construía a sua identidade em relação à do bandido, sofreu uma metamorfose, cujo resultado foi a emergência de uma ordem de interação sui generis inscrita nas redes de sociabilidade da violência urbana . A ética do provedor metamorfoseou-se em uma lealdade instrumental e isso deu origem a uma espécie de vínculo social armado e impulsionado internamente como uma forma de convívio capaz de forçar as relações de rotina em dois movimentos concomitantes, de aproximação e de separação de quem vive e circula nessas redes de sociabilidade da violência urbana . O estudo da forma de convívio é feito a partir da construção de uma coleção de relatos baseada em entrevistas com um grupo heterogêneo de tipos sociais por exemplo, trabalhador favelado, ex-traficante, familiar de bandido, policial militar, policial civil, militar das Forças Armadas, jornalista, fotógrafo, professor da rede pública, pesquisador, militante de Direitos Humanos, advogado etc. , e, também, da observação flutuante em três favelas, uma delas com tráfico de drogas a varejo armado e ostensivo e as outras duas com Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Assim, a coleção de relatos e a observação flutuante são articuladas num recorte transversal e não linear orientado para a abordagem dessa ordem de interação emergida por contiguidade entre a ordem social convencional e a violenta, visando capturar a dimensão intersubjetiva e empírica da forma de convívio que junta e separa, simultaneamente, as pessoas que vivem sob ameaça da violência física, do assédio moral e da corrupção do dinheiro, fatores altamente coercitivos e que produzem os deslizamentos de sentido entre as categorias crime , trabalho e consumo . |
Funk para além da festa: um estudo sobre disputas simbólicase práticas culturais na cidade do Rio de Janeiro
| Como um fenômeno cultural de massa, os bailes denominados na cidade do Rio de Janeiro como "bailes funk" constituem o objeto desta tese. O objetivo é compreender as práticas culturais relacionadas ao baile. Ou seja, circuitos de composição, relação com as gravadoras, com o tráfico local e principalmente as classificações identitárias em torno do termo "funkeiro", que desde a década de 90 têm implicações diretas nas discussões sobre ordem urbana. O universo empírico localiza-se em favelas cariocas e mais especificamente interessam os "bailes de comunidade". Contudo os impactos destes bailes e do funk como expressão de uma parcela da juventude pobre, transcendem os territórios de favela. A pesquisa fundamenta-se em entrevistas, etnografia, análise de documentos, jornais e letras de música para problematização da relação entre práticas culturais, classificações e estigma. Uma hipótese desta pesquisa aponta para existência de disputas simbólicas entre diversos atores dentro e fora das favelas pesquisadas. Neste sentido, o funk como termo polissêmico é tema para discussões sobre ordem urbana, estética, entretenimento, geração de renda, etc. Esta hipótese reforça o argumento sobre a necessidade de estudar o fenômeno não apenas como forma de entretenimento mas como importante eixo articulador de mapas cognitivos em circulação na cidade do Rio de Janeiro. |
Trabalhadores em trânsito: um estudo dos novos taxistas da cidade do Rio de Janeiro
Esta dissertação foi elaborada a partir de uma pesquisa de observação participante realizada com motoristas de táxi da cidade do Rio de Janeiro entre 2003 e 2005. As entrevistas indicaram significativa presença de profissionais com nível de escolaridade acima do ensino médio que ingressaram na profissão após a perda de seus empregos originais. As explicações mais prováveis estão relacionadas à mudança estrutural na organização dessa modalidade de transporte e a processos de downsizing e de reestruturação produtiva ocorridos em diversas empresas nas duas ultimas décadas. A integração dos novos motoristas à sua nova condição ocupacional é abordada, bem como questões relativas à sociabilidade com outros taxistas e demais sujeitos no trânsito, como outros motoristas (profissionais ou não) e pedestres.
Tem espaço na van: estudo de caso em cooperativa na Região Metropolitana do estado do Rio de Janeiro
A partir dos anos 1990 surge um “novo” tipo de modal nos transportes coletivos urbanos no Estado do Rio de Janeiro, e que passa a realizar, em grande quantidade, os deslocamentos de passageiros/trabalhadores residentes em cidades periféricas, subúrbios e favelas ao centro. Este “novo” modal demonstra, historicamente, não ser tão novo assim. O transporte realizado por kombis e veículos particulares sempre existiu no Estado do Rio de Janeiro desde o inicio do século XX, disputando espaço e mercado com os grupos empresariais dominantes em momentos específicos na história da cidade e do Estado. Porém a partir da metade dos anos 1990, após a estabilização da moeda, as transformações no mundo do trabalho através de um crescente processo de informalidade, a modernização das indústrias e a importação de novos tipos de veículos automotores, difunde-se no território urbano o transporte por vans. Existem nomenclaturas e classificações diversas para esse tipo específico de transporte urbano, ele pode ser classificado como “alternativo”, “informal”, “ilegal”, “pirata”, “complementar”, entre outros. Esta dissertação é a tentativa de observar e indicar as formas e usos diferenciados destes termos de acordo com os interesses de quem classifica e/ou é classificado. O objeto de pesquisa deste trabalho é o transporte realizado pelas vans. A verificação do funcionamento de uma cooperativa que gerencia este tipo de transporte é a tentativa de demonstrar que a estrutura interna deste modal pode assumir aspectos mais complexos do que às limitações das classificações vigentes ou realizadas de maneira mais superficial e holística. Esta dissertação é o início e uma tentativa de descrever o complexo processo de como se forma, se estrutura e atua o transporte por vans na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Castelo de cartas: perícia, esportivização e profissionalização do jogo de poker
Este estudo tenta elucidar a lógica que jogadores profissionais e semiprofissionais constroem no sentido de profissionalizar a carreira de jogador de poker e no de classificá-lo como um esporte, contraposto aos jogos de azar. Focando-se na análise dos discursos de um jogador brasileiro, em paralelo aos de uma jogadora americana, busca-se entender, primeiro, como a noção de "esporte" é construída para abarcar e qualificar o poker profissional, distanciando-o dos jogos de azar; segundo, como a noção de "profissão" se enquadra como causa e consequência do movimento de "esportivização" do poker; e, terceiro, como a categoria "perícia" desenvolve-se para caracterizar não apenas o jogo - esporte - em si, mas também a identidade do jogador, em um movimento classificatório cíclico.
A pixação e o grafite podem ser artes de combate? Negociações e sociabilidades nas margens do tecido urbano
Este estudo é um olhar sociológico sobre duas manifestações estéticas: grafite e pixação. Nesse trabalho são compreendidas como lugares de experiências de artes de combate nas margens do tecido urbano (DAS.; POOLE, 2008). Provocado pelo desconforto causado pela leitura da literatura especializada sobre essas duas manifestações que tende alimentar uma oposição entre os que outrora foram considerados manifestações de um mesmo mundo, questiona-se o status dado ao grafite, considerado a nova manifestação artística do século XXI (SOUZA, 2013). Em contraposição a estas pesquisas pretende-se, nesse trabalho, privilegiar tanto o grafite, quanto a pixação enquanto manifestações das ruas, onde suas sociabilidades, conflitos, negociações fazem parte desse meio e sob o qual os atores e atrizes tendem a valorizar como espaço de liberdade e criação de seus grafites e pixações. Os principais conceitos teóricos em que se baseia essa pesquisa são mecanismos de desencaixe, através das fichas simbólicas, sistema perito e reencaixe, denominado por risco e amizade (GIDDENS, 1992). Esses conceitos permitem discutir a posição de que embora seja crescente o número de espaços alcançados pelo grafite, como galerias, museus, bienais, casas de artes, universidades, dentre outros, ele ainda se constitui como manifestação das margens do tecido urbano (DAS.; POOLE, 2008). Essas manifestações artísticas permitem que seus atores e atrizes consigam negociar e trafegar nas diversas fronteiras entre o legal e ilegal (TELLES, 2010.; 2013). O estudo sugere três pontos relevantes sobre as sociabilidades dessas manifestações. No primeiro ponto, constatou-se que é prematuro afirmar que o grafite seja a nova expressão artística do século XXI, apesar de ter ganhado diversos espaços que não só seu tradicional ambiente: a rua. Isso porque diversas técnicas e estilos encontram-se, ainda sob o rótulo de criminalidade, tais como: Bomb, Throw-up, Tag, Grapixo e o Lambe-Lambe. Uma segunda sugestão é que existe possibilidade de negociação nas margens do tecido urbano e para tanto, os atores e atrizes, utilizam-se de diversos mecanismos de agenciamentos para sua própria proteção nas façanhas. Uma última sugestão apresentada nessa dissertação é a de que grafite e pixação podem ser artes de combate, principalmente com a participação das mulheres nesse processo, mas para isso, os indivíduos que as fabricam tendem a separar essa mesma arte de combate através da ideia de pintar como forma de protesto, contra o rótulo de desenhar, que segundo os próprios grafiteiros(as) e pixadores(as), seria uma forma de embelezar a cidade, não sendo assim uma arte de combate das injustiças e opressões contidas na sociedade.
A Empresa Como Vocação: o SEBRAE e o Empreendedorismo na Cultura da Informalidade como Problema Público
Favela
Composto por 264 artigos escritos por 160 autores, o livro é um compilado de termos que sinalizam os múltiplos caminhos que existem nas cidades e em suas palavras. Licia do Prado Valladares contribui com o verbete "Favela".