Passadas duas décadas do reconhecimento, legal e formal, de que a favela deve, sempre que possível, permanecer onde está, as chamadas políticas de urbanização de favela parecem não institucionalizar-se. Da década de 1990 até hoje, são diversos experimentos, programas e projetos sem continuidade. Projetos e programas são sistematicamente interrompidos, abandonados, alterados sem explicações razoáveis, ou ainda, quando terminados, desprovidos de acompanhamento adequado que garanta a sua manutenção no tempo. O objetivo deste trabalho foi investigar a formulação de políticas sociais à luz da representação de interesses, analisando a trajetória do processo através do qual se constituem as políticas de urbanização de favelas no Rio de Janeiro entre 1993 e 2013. Nosso objetivo aqui se deu no sentido de expor os processos nos quais se resolvem as disputas que vão definir o que permanece e o que é interrompido em relação à institucionalização de uma política social, quais visões e grupos legitimam decisões, e quais práticas prevalecem ao longo do período. Nesse empreendimento, percebemos que o território da favela é por um lado pressionado pelo mercado, que busca apropriar-se desse território em sua busca incessante ela criação de valor, e por outro por uma classe política que estabeleceu fortes laços clientelistas com esses territórios. Para os primeiros, o que interessa é dispor desse território crescentemente valorizado em certas áreas da cidade, e aos segundos interessa manter a relação de troca personalista, de forma que as benesses que chegam ao território sejam a) percebidas como fruto de sua ação, e b) não sejam universais, ao ponto de que o “cliente” não necessite mais do “patrão”. Assim, segue-se o contagotas da intervenção urbana na favela carioca, pressionado pelas demandas do mercado por um lado, e pela gramática clientelista de outro.