Planejamento Urbano
Uma Outra Brasília
Em 1999, cumprindo um compromisso assumido com o Correio da Unesco, Licia do Prado Valladares foi a Brasília, Distrito Federal que, já em 1991, era o segundo estado da União a apresentar os melhores indicadores de desenvolvimento humano do Brasil. As notas e impressões dessa viagem foram transformadas em texto. Sem maiores pretensões, o recado passado pela socióloga ao visitante que vai à Capital Federal – em geral apressado em sua ida a algum Ministério ou à UNB – é de não se limitar ao Plano Piloto. Se acaso quiser saber “o que se tornou Brasília” deve ir muito além deste “intramuros”, muito além dos limites oficiais da cidade planejada por Lúcio Costa, da cidade dos cartões postais, que só mostram as imagens da arquitetura modernista, sobretudo o eixo monumental com as obras realizadas por Oscar Niemeyer e os edifícios-sede do poder central.
Introdução à coletânea "Solo urbano: tópicos sobre o uso da terra"
Nos textos dessa coletânea, são examinadas, sob três diferentes enfoques, as relações entre os problemas de uso do solo urbano e a moradia nas cidades, o de natureza explicitamente teórica, o da análise empírica e o dos parâmetros jurídico-institucionais que balizam o uso do solo urbano.
O Rio depois da tempestade. Há culpados? O que fazer?
Em 2010, o Rio sofreu a mais forte tempestade desde 1916 - ano em que o índice pluviométrico começou a ser medido no Brasil. Conforme Machado, a todas as manifestações extraordinárias da natureza, segue-se uma caça frenética aos responsáveis pelas trágicas consequências sociais. No entanto, a responsabilidade sempre acaba sendo atribuída aos favelados, ora vistos como espertos “invasores ilegais”, ora como incapazes objetos da “politicagem clientelista”, outra maneira de falar de ilegalidade em relação às favelas. Como quem está na ilegalidade tem um status público muito restrito e, a rigor, não precisa ser ouvido, sempre que o processo é deflagrado, segue-se uma veemente defesa unilateral da remoção das favelas “em favor da vida e da dignidade dos favelados”. De acordo com o sociólogo, porém, é igualmente previsível as consequências catastróficas para os removidos e elas precisam ser consideradas.
Proposta de modelo para avaliação de espaços para pedestres quanto à percepção de seguridade
Diferentes variáveis podem encorajar ou não a opção pelas caminhadas como modo de
transporte. Em especial, diversos estudos têm demonstrado a relevância de questões ligadas à
segurança pessoal, sobretudo do ponto de vista subjetivo. Mas, diferentemente de outras
dimensões relativas à caminhabilidade, a seguridade percebida não recebeu, até o momento,
uma abordagem ampla e detalhada para sua avaliação. Na perspectiva do planejamento urbano,
a disponibilidade de uma ferramenta com essas características poderia auxiliar a formulação de
estratégias mais eficientes visando tornar cidades mais seguras. Nesse contexto, esta pesquisa
objetivou construir um modelo para avaliação de espaços para pedestres quanto à percepção de
seguridade, utilizando abordagem multicritério. Para isso, foram executadas três etapas
metodológicas principais relacionadas à (1) construção, à (2) elaboração do sistema de
avaliação técnica e à (3) aplicação do modelo, nomeado Índice de Segurança Pessoal Percebida
(ISPP). Tratando da construção da ferramenta, com base na literatura, foram definidas 17
características de seguridade percebida que influenciam a opção pelo transporte a pé, tomando
como base a dinâmica urbana de cidades brasileiras. Tais características foram divididas em
duas dimensões (Espaço Físico e Ambiente Social). Depois, foram aplicados 405 questionários
para conhecer a opinião dos usuários acerca da relevância das características selecionadas. A
partir das respostas obtidas, por meio de Análise Fatorial Exploratória, foi desenvolvida uma
estrutura hierarquizada para o Índice em indicadores (relativos às características levantadas),
fatores e domínios (Espaço Físico e Ambiente Social), e foram determinados os pesos relativos
desses três componentes, utilizando abordagem do tipo bottom-up. Então, realizou-se a
agregação desses indicadores, fatores e domínios, por meio de uma combinação linear
ponderada. O resultado dessa expressão matemática, variável de 0,0 até 1,0, equivale ao valor
final do modelo e indica a condição de seguridade percebida em um espaço para pedestres,
podendo variar de péssima até ótima, nessa ordem. Quanto à elaboração do sistema de
avaliação, foram definidos critérios e procedimentos técnicos, aplicáveis inclusive a partir de
imagens, para cada indicador. Para oito deles foram elaboradas funções fuzzy para a
normalização de valores dentro do intervalo de 0,0 a 1,0. Para a construção das curvas, foram
utilizadas informações levantadas junto a um painel composto por 36 especialistas que atuam
na área de transportes. Construído o modelo e definido o sistema de avaliação, conduziu-se uma
aplicação da ferramenta. Usando o ISPP, foram avaliadas 24 imagens dos tipos fotografia e
Street View, representativas de variados níveis de seguridade percebida. Também, foram
avaliados outros seis cenários urbanos, retratados em fotografias nos períodos diurno e noturno,
o que permitiu explorar a variação da seguridade percebida nesses espaços em diferentes
situações. No geral, a aplicação do ISPP mostrou-se prática, indicando informações relevantes
sobre os espaços avaliados do ponto de vista da segurança pessoal. Entende-se que o Índice
desenvolvido possa ser utilizado como ferramenta de apoio à tomada de decisão para a
promoção de espaços mais seguros aos pedestres. Para tanto, é relevante que planejadores e
gestores urbanos, e pesquisadores explorem as potencialidades do modelo, verificando
inclusive possibilidades de adaptações, visando melhorá-lo continuamente.
Proposta de Método para Avaliação do Nível de Serviço de Calçadas para Cidades de Pequeno Porte: Estudo de Caso em São Tomé - PR
Seja pelo aspecto social que envolve ou por ser elemento fundamental à realização de
deslocamentos a pé, as calçadas têm papel importante na vida dos citadinos. Entretanto, para
que a infraestrutura de circulação seja plenamente utilizada, o serviço por ela oferecido deve
suprir a demanda local, proporcionando conforto e segurança aos seus usuários. A questão é
particularmente importante em cidades de pequeno porte populacional, para as quais, devido à
ausência de transporte público e às pequenas distâncias, as viagens a pé constituem a base da
mobilidade urbana. Neste prisma, esta pesquisa teve por objetivo propor método de avaliação
do Nível de Serviço de calçadas para cidades de pequeno porte. O modelo elaborado e aplicado
em São Tomé, Paraná, foi baseado em Ferreira e Sanches (2001) e em Ferreira e Sanches
(2005), sendo denominado Índice de Serviço das Calçadas (ISC), composto por outros dois
Índices que envolvem aspectos de Qualidade do espaço e de Acessibilidade (ISCqe e ISCa). O
método envolveu três etapas: análise técnica das calçadas, verificação da percepção do usuário
e atribuição dos Níveis de Serviço, variando de A até F (pior situação), conforme resultados
dos Índices. Para a variável de Arborização da calçada fez-se necessário o censo arbóreo, o qual
indicou 4.081 espécimes, sendo Licania tomentosa (Benth.) Fritsch (Chrysobalanaceae)
(n=1.722) e Poincianella pluviosa var. peltophoroides (DC.) L.P. Queiroz (Fabaceae) (n=604)
as espécies mais recorrentes. No total, 50 espécies vegetais (f=25,26%) apresentaram
características inadequadas à sua utilização. Após análise técnica de 570 quadras, o que
corresponde a 47.255,8 m de calçadas, e realização de pesquisa de opinião com 355 munícipes
foram calculados o ISCqe, o ISCa e, finalmente, o ISC. Houve maior ocorrência da condição
péssima (NS F), principalmente nas áreas mais periféricas. Os Níveis de Serviço mais
adequados (NS A até D) foram condicionados a 35,09% das quadras, correspondendo a
16.050,3 m de caminhos de pedestres, sendo que a Avenida José Madureira foi a via com
melhores médias de Índices da cidade. O modelo proposto apresentou aplicabilidade adequada
às cidades de pequeno porte, havendo possibilidade de ser adaptado para utilização em cidades
de maior porte.
Pan-2007 no RJ: um olhar e algumas considerações
O principal objetivo deste artigo é analisar o projeto político e a organização dos Jogos Pan-Americanos de 2007 na cidade do Rio de Janeiro, especialmente a “segurança” – documentos oficiais, expectativas e resultados. Além disso, o artigo mostra os resultados de uma pesquisa que foi realizada com a população do Rio de Janeiro durante a competição. O mais importante deles: apesar de alguns bons resultados, os Jogos Pan-Americanos de 2007 não conseguiram alcançar aquilo que era esperado pela população da cidade.
As arenas do Pan: espectadores entre serviço e repressão
O propósito da presente pesquisa é analisar os Jogos Pan-Americanos 2007 do ponto de vista do torcedor, com o objetivo de aprimorar os elementos de atendimento ao espectador que deram certo e de evitar falhas num próximo evento. Para isso foram aplicadas entrevistas com questionários aos visitantes dos eventos do Pan 07. O artigo descreve o perfil destes espectadores de um megaevento esportivo e a avaliação do atendimento ao torcedor. Como principais preocupações dos torcedores surgiram os pontos: ingressos, informação e segurança.
Boom, Burst e Doom: O Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro como catalisador do Desenvolvimento Urbano-Regional | Boom, Burst, and Doom: The Petrochemical Complex of Rio de Janeiro as Catalyzer of Urban-Regional Development
O desenvolvimento liderado por recursos naturais é amplamente debatido por conta das dificuldades de se converter a riqueza mineral em maior bem-estar social. Assim, a construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – COMPERJ no estado do Rio de Janeiro, o maior produtor brasileiro de petróleo e gás, foi empreendida como uma estratégia de superação dos efeitos da “maldição dos recursos naturais” através da diversificação produtiva e melhoras urbanas em parte da periferia metropolitana do Rio de Janeiro reconhecida pelo déficit histórico de oportunidades de desenvolvimento social e infraestrutura urbana. Nesse contexto, o artigo analisa a trajetória do desenvolvimento urbano e regional na porção Leste da Região Metropolitana do Rio de Janeiro entre 2006 e 2016, destacando as fases boom, burst e doom da dinâmica socioeconômica regional. O estudo assinala as principais características e objetivos do projeto, os desafios da região no momento do rompimento da “miragem” do crescimento liderado pela grande indústria, bem como as suas atuais condições. A análise sobre o COMPERJ e seus impactos regionais revelam os riscos e paradoxos de se investir nesse tipo de megaprojeto industrial como plataforma de promoção do desenvolvimento social para uma região sem maior diversificação econômica e planejamento urbano-regional.
Appropriation and political expression in urban public spaces | Apropriação e expressão política nos espaços públicos urbanos
There are many, diverse issues that determine the relationship between citizens and their public urban spaces and, consequently, the significance that these spaces acquire for society as a whole. In totalitarian regimes however, the use of streets and parks as places of protest and resistance against sequestered freedom is not permitted. However, in democratic regimes, the reflections and discourse of architects, urbanists, researchers and policy makers regarding the manner in which public urban space is (or should be) appropriated by the population, has revealed a systematic reinterpretation of these spaces. Indeed, ever since the last decades of the past century, it has become recurrent to associate these physical spaces with the space of political realization. The intention of the present article is to bring the meaning of this association into debate, above all due to the insurgencies from certain segments of our population, which have taken place over recent years, manifestly in the streets, parks and avenues of our cities.