Solo urbano
Nosso Chão: do sagrado ao profano
Estuda a evolução do espaço público urbano no Brasil com base no caso específico da cidade de São Paulo. Confirma a idéia de que houve um claro e vagaroso processo de secularização, que é analisado em quatro aspectos: o conceito, o uso, o âmbito e o tratamento das ruas, praças e jardins. As fontes primárias de pesquisa foram, entre outras, as leis eclesiásticas e civis, documentos oficiais e narrativas de viajantes que visitaram nosso país através dos séculos. A iconografia, mais generosa apenas para os últimos dois séculos, desempenhou um papel auxiliar. Por esta razão não foram mostradas ilustrações neste estudo. As hipóteses levantadas concernentes aos quatro aspectos arquitetônicos foram provadas através do exame das normas determinantes dos espaços públicos de São Paulo, da documentação existente em arquivos públicos e relatórios de visitantes estrangeiros de vários períodos, alguns encontrados em edições antigas e raras. Conclui-se que: 1) no decorrer do tempo, os cânones foram cedendo lugar às leis civis; 2) o uso religioso das ruas foi diminuindo em relação ao seu uso temporal; 3) o contorno do chão público foi se tornando mais preciso e transcendendo os pátios das igrejas; 4) somente recentemente o equipamento urbano das áreas públicas tornou-se mais rico. Restringiu-se intencionalmente o estudo no seu escopo. Ao enfatizar-se o valor dos textos legais, forçosamente outras questões ficaram em segundo plano. Nas conclusões, é frizada a importância da evolução das formas de apropriação do chão para um conhecimento maior da paisagem urbana.
Dimensões sociais das desigualdades urbanas: moradias da pobreza, segregação e alteridade em São Paulo
O objetivo do trabalho é resgatar, ao longo de nossa trajetória de pesquisa sobre a questão habitacional, a produção do “outro” em diversas situações de vivência na cidade de São Paulo, onde se visualizam acentuadas desigualdades, segregação socioespacial e discriminação. A cidade concentra questões emblemáticas no estudo das cartografias sociais, no reconhecimento das diferenças e da cidadania territorial. A análise da luta pelo espaço urbano permite revelar a combinação de aspectos sociais, econômicos, étnicos, àqueles profundos e subjetivos como língua, valores, matizes culturais. A alteridade se manifesta de diferentes formas, em vasta gama de situações urbanas.
Os limites da acumulação, movimentos e resistência nos territórios
Em novembro de 2016, os organizadores da obra reuniram uma série de recentes pesquisas, reflexões e depoimentos de experiências de resistência – realizadas dentro e fora da universidade, em diferentes regiões do país (Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Distrito Federal e Amazônia), no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em São Carlos, com a perspectiva de discussão dos processos e limites da acumulação capitalista neoliberal em nossos territórios. O colóquio “Os limites da acumulação e os movimentos de resistência no território” proporcionou conhecimento e discussão sobre diversos trabalhos, tais como: financeirização da produção e reprodução do urbano, emergências e sua gestão e racionalidade neoliberal; aspectos e leituras das transformações em curso no território; movimentos sociais, suas leituras, novas clivagens e conformações; e resistências no trabalho e nos conflitos fundiários pela permanência nos locais de moradia. A presente publicação busca ampliar as possibilidades de compreensão da realidade de nossas cidades e territórios, hoje imersos na presente e brutal radicalização do neoliberalismo, em sua expressão periférica.
Como praticar etnografia nas margens e fronteiras das cidades?
O artigo visa debater a influência das margens no processo de urbanização das cidades a partir de alguns estudos de casos na Guiana Francesa, no Norte do Brasil (Macapá e Belém do Pará) e Nordeste (Recife-PE) colocados em perspectiva com trabalhos empíricos mais recentes desenvolvidos na metrópole do Rio de Janeiro, e numa cidade média do estado do Rio de Janeiro: Campos dos Goytacazes. Como abordar as cidades através das suas margens e como interferem diferentes lógicas de poder será o fio condutor de nossa proposta. As margens remetem a outros conceitos, tais como interstícios, fronteiras. A reflexão sobre as margens como elaboração de um objeto de pesquisa antropológica questiona as categorias e categorizações: margens, marginalização, fronteiras, rural/urbano, público/privado nas cidades brasileiras, o que também sugere essa outra pergunta: com que abordagem metodológica estudar as margens? Que significa fazer etnografia nas margens das cidades e do Estado ?
“A melhor vista da felicidade”: o consumo visual da paisagem da Orla Conde como legado do Porto Maravilha na cidade do Rio de Janeiro
Este artigo pretende enfocar a paisagem do percurso da “Orla Conde” que margeia o renovado porto da cidade do Rio de Janeiro. A partir da observação participante, análises de discursos, retóricas publicitárias e imagéticas, nos permitimos analisar a enorme distância entre conceitos usados no contexto das reformas urbanas empreendidas e o que de fato há para se experienciar na paisagem circundante. Tal percurso tem como ponto de chegada uma recém inaugurada roda-gigante, cujo slogan publicitário nos convida para apreciar "a melhor vista da felicidade". Nosso recurso analítico é a descrição e a prática do percurso proposto e, ao fazê-lo, nos interrogamos sobre as possibilidades de flanar e de se encantar no espaço linear que propõe o trajeto fixo, apoiado numa linha projetual que não nos convida a desvios nem encruzilhadas e que nos conduz para um artefato de fantasia e de entretenimento direcionado apenas para o consumo visual da paisagem.
Planejamento urbano e atividades econômicas: balanço das experiências na cidade de São Paulo
Este trabalho tem como objetivo investigar o papel dos instrumentos de planejamento urbano na promoção de atividades econômicas na cidade de São Paulo. A partir de uma revisão dos planos diretores e leis de zoneamento municipais e estaduais propostos para a cidade desde meados do século XX até os dias de hoje, bem como de uma pesquisa acerca da territorialidade do uso comercial, de serviços e industrial no espaço intraurbano, identificamos quatro tipos de estratégias empreendidas pelo Estado, através dos instrumentos de planejamento urbano, para orientar a localização das atividades econômicas na cidade. Primeiro, a restrição a esses usos com o objetivo de preservar outras funções urbanas, tais como o uso residencial de alta renda e o patrimônio ambiental; segundo, a reserva de terras através do instrumento zonal para manter ou atrair indústrias; terceiro, a definição de investimentos públicos estratégicos, seja em infraestrutura ou em projetos específicos, nos planos diretores; e, quarto, a adoção de incentivos fiscais e urbanísticos para estimular a localização de novos estabelecimentos comerciais ou industriais em territórios com pouca oferta de emprego. O trabalho apresenta um balanço abrangente e crítico sobre as estratégias adotadas (ou, por vezes, somente propostas), amparado pelo estudo de casos específicos, refletindo sobre o contexto e as condicionantes da construção dos instrumentos e seu impacto efetivo (ou potencial) na localização das atividades econômicas. Buscamos, assim, oferecer uma contribuição para o debate acerca da história, do alcance e dos limites dos instrumentos de planejamento urbano em São Paulo.
A Caixa Econômica Federal como agente da política habitacional: um estudo a partir do PAC e PMCMV em Carapicuíba
Esta dissertação analisa um projeto de intervenção em favelas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e um projeto habitacional do Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) no município de Carapicuíba, tomando como foco de análise as ações da Caixa Econômica Federal (CEF) enquanto agente da política habitacional. O objetivo é avançar na compreensão da política habitacional recente, pensando o lugar do Estado e as recentes mudanças socioespaciais da periferia metropolitana de São Paulo. Tendo em vista a dimensão histórica da política habitacional, interessa especificamente à pesquisa, compreender as práticas institucionais da CEF na materialização dos projetos habitacionais, estabelecendo as relações desta instituição com outros agentes da produção da política habitacional (MCidades, prefeituras, governo estadual, empresas prestadoras de serviços e construtoras). Deste ponto de vista, pretende-se contribuir para uma leitura das lógicas empresariais envolvidas na produção urbana e das formas (econômica, política e social) que a determinam. A reflexão desenvolvida neste trabalho se apresenta na seguinte perspectiva: 1) uma "racionalidade neoliberal" (Dardot & Laval) vem criando níveis de indistinção entre as lógicas de ação de agentes públicos e privados; 2) tal racionalidade tem sido revista e aprofundada numa produção empresarial do urbano que se objetiva e se subjetiva no espaço e nas populações; e 3) um momento central desse processo é a extensão desta racionalidade ao poder público local e às empresas pelas ações estatais institucionalizadas na CEF. A metodologia de pesquisa se centrou na análise documental e qualitativa por meio de observações de campo e realizações de entrevistas. Este material foi estudado à luz de uma bibliografia contemporânea que cruza áreas do conhecimento (urbanismo, geografia, economia, sociologia) na busca da compreensão dos espaços urbanos e dos processos de urbanização.
Às margens do Programa Minha Casa Minha Vida: um estudo sobre a modalidade Entidades na Região Metropolitana de São Paulo
O trabalho apresenta o modelo de produção habitacional autogestionário do Programa Minha Casa Minha Vida a modalidade Entidades que se concentrou no contexto social e político construído por aquilo que se entende como lulismo, iniciado em 2003. Através de um retrato específico dos únicos nove conjuntos habitacionais concluídos na Região Metropolitana de São Paulo por esse modelo até dezembro de 2016, problematiza-se os limites entre política/programa, desejo/direito, centro/periferia, virtude/exceção, legal/ilegal, público/privado. Para tanto, localizamos esse modelo específico de produção de moradias de interesse social na ideia de margens, que é montada progressivamente ao longo da pesquisa em três escalas de leitura. Partimos das margens do lulismo para localizar a produção geral do Programa Minha Casa Minha Vida; em seguida, mergulhamos mais detalhadamente nas margens do PMCMV a fim de observar a produção específica de sua modalidade Entidades; e concluímos o trabalho analisando as margens do Entidades para, finalmente, alcançar os limites e injunções dessa produção na metrópole paulista.
A produção do espaço e as estratégias reprodutivas do capital: negócios imobiliários e financeiros em São Paulo
A pesquisa trata do processo de urbanização contemporâneo da cidade de São Paulo, tendo como foco de análise a produção do espaço através das estratégias reprodutivas do capital financeiro articuladas ao setor imobiliário. Assim, privilegiou-se uma reflexão sobre as ações econômicas que, ligadas ao plano político do Estado, fundamentam sua reprodução na produção privada do espaço residencial capitalista, cuja lógica obedece aos nexos do valor-de-troca e da valorização do solo urbano. O contexto da economia financeirizada marca uma série de novas relações entre o grande capital de origem imobiliária e as finanças, resultando em uma crescente abstração do espaço como valor financeiro, vinculado e ao mesmo tempo tendente a se autonomizar da esfera produtiva da construção civil. Assim, o setor imobiliário de ponta encontra-se cada vez mais financeirizado, seja pela utilização ampliada de instrumentos de financiamento às suas atividades, como os Fundos de Investimento Imobiliário, seja pela abertura de capital e emissão de ações em Bolsa de Valores, que impõem inclusive uma nova racionalidade para o imobiliário. Nesse processo, o setor imobiliário se capitaliza, passando a gerenciar a construção e a voltar-se principalmente aos negócios referentes à incorporação de terrenos, como base do processo de valorização do espaço. A pesquisa esteve centrada, num primeiro momento, na investigação empírica do caso particular do Fundo de Investimento Imobiliário Panamby, sendo que, num segundo momento, realizou-se uma reflexão sobre a atuação de algumas empresas do setor imobiliário na totalidade de seus investimentos/lançamentos na cidade de São Paulo, na qual buscou-se compreender as estratégias espaciais da atividade imobiliária articulada à esfera financeira e com a indústria da construção civil. Desse modo, pôde-se conhecer alguns movimentos da produção do espaço urbano através da produção capitalista do imobiliário residencial, como a estratégia da diversificação espacial dos empreendimentos. Fundamentalmente, percebeu-se que a produção lógica do espaço como valor-de-troca, através da produção capitalista, enfrenta e muitas vezes vence obstáculos vindos da prática socioespacial como elemento negativo desse processo.