Processos de urbanização
Cultura e urbanidade no Centro Histórico de Manaus: um estudo espacial e sensorial
O presente artigo pretende abordar uma área do Centro Histórico da cidade de Manaus à luz de duas estratégias de análise urbana, a de Gordon Cullen (2008) e de Kevin Lynch (1960). A intenção é penetrar nas várias camadas que compõem esse espaço, escolhido e delimitado previamente, a partir das perspectivas urbanística e sensorial. Dessa forma, foi selecionada uma área que se considera englobar as várias facetas do Centro Histórico manauara, que pudesse nos guiar nesse percurso como flâneur, em busca de uma apreensão do ambiente construído, suas reverberações e sua legibilidade. O objetivo final é observar as nuances desse espaço, o que ele nos comunica e o que é possível apreender dele dentro da esfera da sensibilidade humana.
O lugar entre mulheres e linhas
Este relato se refere ao bairro São Geraldo em Pouso Alegre/MG, parte da interação com mulheres que bordam, costuram e sonham no lugar. A localização central do São Geraldo, apesar de favorável na cidade, equivale a uma área precarizada pelo processo de urbanização que se apresenta com certo atraso no bairro, comprometendo sua funcionalidade, estética e o uso de seu espaço urbano. O (re)conhecimento do aspecto plural existente no lugar passa por seus sujeitos, seus espaços e pelas relações cotidianas. O texto tem como objetivo apreender experiências do bairro São Geraldo a partir de mulheres que bordam e costuram nele. Justifica-se pela importância de localizar a potência da cultura em meio ao discurso de desenvolvimento adotado pela cidade, gerando subsídios para ações sociopolíticas e fomentando a pesquisa e extensão acadêmica. A metodologia pautada na etnografia do bordado, proposta por Pérez-Bustos e Piraquive (2018), demonstrou no decorrer dos encontros com mulheres habitantes do bairro a possibilidade de trocas em meio ao fazer manual, revelando camadas antes ocultas ou pouco mencionadas sobre o lugar.
Emergência urbana: criação de espaço público e o nascimento do 'Parque Minhocão' na cidade de São Paulo
Neste artigo analisamos a emergência do Parque Minhocão, em São Paulo, a partir das interações e engajamentos que os habitantes da cidade realizam com esse famoso viaduto da capital. Observamos que o espaço não é algo de significado fixo, mas que emerge continuamente e de forma espontânea das ações não planejadas das pessoas que recebem o espaço historicamente constituído e continuam a moldá-lo através das demandas da sociabilidade de suas vidas. Apontamos que no caso do Parque Minhocão a dimensão criativa e lúdica é elemento central para se entender como se dá o processo de democratização de áreas privadas ou restritas da cidade e que são incorporadas pelas pessoas como espaço público, sem necessariamente haver a mediação do poder público. O Minhocão representa no imaginário paulistano um projeto urbanístico de insucesso que degradou a cidade; notamos, porém, que em seu dia a dia as pessoas não olham apenas para as imperfeições desse viaduto, integrando-o às suas vidas e atribuindo-lhe qualidades.
A Ouro Preto que não está no retrato: contando a cidade e capturando cenários sob a perspectiva dos seus moradores
O presente trabalho pretende contribuir com os estudos antropológicos sobre dinâmicas urbanas em cidades pequenas e médias, a partir da cidade histórica de Ouro Preto. Famosa por sua importância no período colonial brasileiro, a cidade hoje tem no turismo sua principal atividade econômica. Entretanto, os moradores produzem outras (micro)territorialidades e interpretações da cidade, que nem sempre são observadas por quem a visita. Pretendemos explorar essa outra dimensão, a partir da leitura de moradores que ali nasceram e, a partir do uso de fotografia, nos mostraram essa outra cidade, que destoa daquela que está nos cartões postais. Nesse processo, pôde-se observar que a cidade, apesar do peso de seu passado, está em constante mudança, sendo transformada por quem a habita.
Imprensa e espaço urbano: a campanha do Jornal do Brasil pela urbanização da Barra da Tijuca (RJ) nos anos 1960
Neste artigo, debruço-me sobre a discussão feita nas páginas do Jornal do Brasil (JB), em meados dos anos 1960, a respeito do desenvolvimento urbano da Barra da Tijuca, bairro localizado na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Argumento que esse jornal construiu, a partir de um conjunto de reportagens, o imaginário simbólico da Barra da Tijuca como o Rio do futuro. Tais textos mobilizaram uma retórica de acusação e interpelação do poder público requisitando, para a região, políticas urbanísticas. Há no cerne da argumentação das reportagens o anseio de modernização do espaço urbano do Rio de Janeiro, que caracteriza parte das expectativas sociais do contexto. Esses imaginários de futuro constroem materialidades no espaço, têm efeito social na medida em que engendram políticas e mobilizam o poder público.
Ocupação Urbana e Despejo: entre o ritual popular e o estatal
Experimentos teórico-etnográficos na fronteira entre a etnologia indígena e a antropologia urbana
Esta pesquisa de mestrado pretende identificar os mecanismos e estratégias responsáveis pela “indigenização da cidade” de Manaus/AM a partir da perspectiva dos Sateré-Mawé citadinos e analisar as consequências desse processo na dinâmica da metrópole manauara. Para realização deste intento coloca-se como fundamental levar a cabo uma análise fluída de concepções a respeito do ambiente urbano, possibilitando que o material teórico e etnográfico sobre as relações dos Sateré-Mawé moradores da reserva indígena seja tratado de forma uníssona com os dados disponíveis sobre os Sateré-Mawé citadinos. Tendo em mente que a bibliografia consultada e as experiências iniciais de campo mostraram a importância que a relação entre os Sateré- Mawé citadinos e os Sateré-Mawé moradores da reserva indígena possuem mutuamente em sua vida cotidiana, desde a troca de materiais disponíveis na reserva, o acolhimento de migrantes, a participação em rituais e em instâncias decisórias políticas, é fundamental que a análise considere as relações, circulações e respectivas imaginações a respeito da “aldeia” e da “cidade” como material de reflexão teórica. Esta comunicação pretende explorar reflexões iniciais a respeito da aproximação teórico -etnográfica de segmentos da disciplina antropológica comumente pensados e tratados separadamente, a saber, a “etnologia indígena” e a “antropologia urbana”.
Os ritmos do corpo e da metrópole sobre rodas
“São Paulo: a cidade que não pode parar”. O lema paulistano surgido na década de 1950 alude ao ritmo vertiginoso de crescimento da metrópole, induzido, em grande medida, pelo setor automobilístico coadunado com um planejamento urbano rodoviarista. Ao longo das décadas, no entanto, a cidade que não pôde parar produziu seu inverso. Aprisionou seus automóveis em longos congestionamentos, ameaçando o ritmo do capital produtivo, o que engendrou, paradoxalmente, imobilidades urbanas. Em consequência, emergiram soluções endereçadas às externalidades negativas provocadas pelo excesso de automóveis, dentre elas a bicicleta – em consonância com políticas cicloinclusivas (SÃO PAULO, 2014; SÃO PAULO, 2015) –, acirrando as disputas políticas por espaço e legitimidade na cidade.
Gentrification: processo global, especificidades locais?
Este artigo é um balanço bibliográfico não exaustivo acerca da gentrification, por meio do qual delineio tanto seus modelos vigentes quanto as formas como ela se estrutura em distintas localidades. Inicialmente, apresento as características gerais que a literatura sociológica e antropológica, debruçada sobre o tema, costuma apontar-lhe; em seguida, explicito os dois principais modelos de renovação urbana, exemplificados pelas cidades de Nova York e Barcelona. Passo, então, à análise de como a gentrification se desdobra na América Latina, tendo por base os contextos da Cidade do México, Buenos Aires, Recife e, prioritariamente, São Paulo. Por fim, apresento comparações entre as realidades encontradas na América Latina e as de Nova York e Barcelona.