Na modernidade tardia, a sociedade enfrenta as consequências de profundas mudanças socioambientais que se evidenciaram a partir da segunda metade do século XX: urbanização
acelerada, degradação e poluição dos recursos naturais, depleção da biodiversidade e aquecimento global. Ao mesmo tempo, fortes inequidades sociais caracterizam este ambiente,
onde grupos populacionais são excluídos de bens e serviços essenciais à saúde e bem estar humano como acesso à infraestrutura urbana, à informação, à moradia, aos serviços
de saúde, dentre muitos outros capitais. O aumento de temperatura e as mudanças nos padrões de pluviosidade preconizados para as próximas décadas são as mudanças ambientais
mais discutidas da atualidade. Elas representam novos riscos e incertezas para o futuro de questões de saúde já preexistentes na sociedade, especialmente àqueles associados
às doenças de transmissão hídrica (DTH). Este trabalho buscou identificar a vulnerabilidade em saúde associada às mudanças ambientais no litoral Norte do Estado de São Paulo,
utilizando as doenças de transmissão hídrica como objeto de análise ? em especial, as diarreias agudas - e o município de Caraguatatuba como local de estudo. O saneamento
ambiental, o ritmo climático e os aspectos culturais formam as principais categorias analíticas utilizadas para explicar os padrões observados de incidência de diarreias agudas
em Caraguatatuba, que atualmente tem taxas de morbidade 40% maiores do que as taxas observadas há dez anos atrás. Crianças são proporcionalmente mais atingidas, mas destaca-se
o fato de que 46% da morbidade anual recaem sob a população adulta. Observou-se que os registros de diarreia são superiores nas 8 primeiras semanas do ano. A temperatura e
a pluviosidade explicam o comportamento da incidência de diarreia em quase todas as faixas etárias avaliadas. A distribuição espacial de uma amostra dos casos totais de diarreia
ocorridos entre 2005 e 2010 demonstrou que sua incidência não se correlaciona aos locais com maior taxa de utilização de água fora do sistema de distribuição municipal, nem
mesmo aos locais com maior taxa de moradores desprovidos de coleta de esgoto ou lixo domiciliar. Também não se relacionou às áreas potenciais de inundação do município. Esse
é um indício de que o local de contaminação não está associado ao endereço de moradia registrado pelo paciente. As fontes de contaminação mais citadas são alimentos e água
consumidos fora do lar, onde não se pode atestar as condições de higiene e tratamento. Ao mesmo tempo, evidenciou-se um comportamento cultural associado ao ?veraneio?, que
inclui mudanças nos hábitos alimentares e maior exposição ao ambiente. No senso comum da população, as diarreias não são consideradas um ?problema?, e sim, uma situação passageira
de desconforto dentro da normalidade. Conclui-se que em um contexto de mudanças ambientais, um potencial aumento de temperatura e aumento do volume de chuvas são considerados
elementos importantes da vulnerabilidade em saúde dos moradores de Caraguatatuba. Outros elementos importantes estão associados às particularidades culturais de uma cidade
turística e litorânea que possui comportamento alimentar e atitudes diferenciadas no verão.