As marcas do vivido sentido: memórias de jovens ex-frequentadores de um projeto de educação não-formal
Esta pesquisa de doutorado focaliza as narrativas de jovens a partir das memórias sobre suas experiências passadas em um programa público educacional, de tipo não-formal, frequentado paralelamente à escola. As reflexões foram construídas com base nos depoimentos dados pelos jovens e a partir das representações que fazem dessa experiência e sua interferência (positiva ou negativa) sobre suas vidas na contemporaneidade.
Depois de coletados os depoimentos, foram feitas as transcrições dos conteúdos das fitas cassete e de vídeo que permitiram o levantamento de informações importantes sobre o desempenho de tal proposta educativa e seus efeitos em curto, médio e longo prazo na vida de seus ex-frequentadores. As análises e reflexões construídas posteriormente podem colaborar, principalmente, para se repensar a prática de educadores que lidam nesse campo
da educação, bem como auxiliar na elaboração de políticas públicas sociais, culturais, educativas e de lazer para a juventude.
O programa de educação não-formal escolhido para ser estudado denomina-se Projeto Sol e localiza-se na cidade de Paulínia/SP, próximo à Campinas. Foi criado e mantido pelo poder público desde 1988, vindo a ser extinto pela atual gestão municipal no início do ano de 2000. A frequência a esse Projeto era voluntária e contava com grande número de inscritos. Seu sucesso servia de exemplo para outros programas atuantes na área, incluindo alguns fora
do Brasil.
A pesquisa é de cunho essencialmente qualitativo, com base nos princípios da História Oral, centralizando-se nos depoimentos de jovens (entre 18 e 27 anos), dos gêneros masculino e feminino, com baixo poder econômico, que frequentaram cada um dos quatro núcleos do Projeto Sol localizados em bairros periféricos da cidade: João Aranha, Monte Alegre, Morro Alto e Morumbi. Os depoimentos foram coletados individualmente, em duplas ou coletivamente, o que lançou um desafio metodológico para sua concretização e posterior transcrição dos dados.
Como contraponto das análises, foram entrevistados alguns jovens que não frequentaram o Projeto Sol, para que falassem sobre suas representações acerca desse espaço educativo e sobre os motivos e razões que fizeram com que não fossem frequentadores.
Os frequentadores do Sol falam dele como local de brincadeira e diversão, do aprender a fazer, da sensibilidade, da consciência sobre si mesmo, sobre o outro e o mundo.
Os não-frequentadores falam do Sol como espaço do aprender a fazer, de aprendizado e de alimentação. Criticam a rigidez e a fixação ao espaço físico arquitetônico sob a tutela dos adultos, que se opõe à livre circulação pela cidade. A opção pelo método da História Oral deveu-se a dois motivos principais: por tratar-se de um trabalho baseado na memória e nas falas dos sujeitos e por buscar reconstruir uma parcela da história do Projeto Sol que se encontra registrada de forma fragmentada e dispersa entre os jovens nele diretamente envolvidos ao longo do tempo.
Ao final do trabalho foi possível considerar que as interpretações dos dados permitem afirmar, principalmente, que os efeitos positivos e os benefícios do Projeto Sol na vida contemporânea desses jovens validam as experiências com a educação não-formal. Esta é vista então, como mais uma possibilidade de vivência educativa, atuando em âmbitos que a escola não atua, sem competir com ela, mas visando complementá-la. A partir da fala e das visões desses depoentes pode-se depreender um desejo e uma necessidade pessoal e social de oferecimento de ampla gama de experiências educativas não apenas restritas ao universo escolar ou à escola de tempo integral, principalmente para essa parcela da população com baixo nível sócio-econômico, inclusive como alternativa ao universo da marginalidade.