Durante a primeira metade do século XX, São Paulo consolidou-se como centro urbano no qual se expandiu uma significativa indústria têxtil provocando transformações sociais relevantes não só para o varejo, como também para o comportamento feminino e a moda. Algumas características do varejo de moda e do universo social das vestimentas dos paulistanos neste período formam o eixo central desta pesquisa. Ao longo das investigações realizadas, foi possível perceber o quanto este campo temático é repleto de histórias que nem sempre são convergentes: história da moda e, em particular, do varejo, mas, também, história do comércio, da vida urbana, da imprensa escrita e das noções de elegância, bem viver, conforto ou pobreza. Além disso, a função dos estabelecimentos comerciais e de seus comerciantes ocupou um lugar importante na história da transformação de São Paulo em metrópole e na modificação dos padrões de consumo da crescente população paulistana, contribuindo, ainda, para que estes percebessem a cidade como mais moderna do que em seus tempos passados (e até mais moderna do que realmente era). Nesse momento, na capital paulista, as vitrinas exibiam os objetos de desejos das elites, provocando, em certa medida, uma sensação de proximidade ou de terrível distância entre os consumidores mais pobres e as referências vindas de capitais estrangeiras como Paris, Londres e Nova York. Ao mesmo tempo, a análise do varejo de moda possibilitou o conhecimento de algumas mutações socioeconômicas da cidade de São Paulo nas primeiras décadas do século passado, além de fornecer indícios sobre os hábitos dos consumidores de baixa renda no comércio de roupas. Diante da escassez de documentos oficiais significativos, este estudo tem como fio condutor o diálogo entre a imprensa, em especial, a publicidade veiculada pela revista A Cigarra e pelos jornais - O Diário de São Paulo, Folha da Noite e Estado de S. Paulo - e as demais referências bibliográficas - livros, teses, periódicos e documentos disponibilizados na Internet - além da documentação fornecida pelas Casas Pernambucanas, objetivando a compreensão da democratização da moda e a inserção do consumo de baixa renda entre os anos 1910 e 1940. As fontes pesquisadas revelaram que o varejo de moda, através da demanda e da oferta nas lojas (e fora das lojas) de produtos que traduziam a modernidade - bens de origem européia ou americana, ou à semelhança de -, corroborou para a propagação de valores estéticos e culturais, em que os varejistas de moda, tendo como recurso adicional a publicidade de seus estabelecimentos e produtos, colaboraram para a "venda" de imagens e estrangeirismos, reconhecidos pela população paulistana como símbolos de distinção e identificação social.