Comunicação e cidade: o habitar como invenção
O presente trabalho tem como objeto empírico a cidade, especificamente o centro de São Paulo (marcado pelo edifício Copan, projetado na década de 1950 por Oscar Niemeyer) e o bairro berlinense Hansaviertel (reconstruído no final de 1950 de acordo com as premissas do Movimento Moderno). Busca-se, a partir da observação e análise de processos ora mediativos, ora interativos ou ainda situados entre a mediação e a interação, investigar o confronto entre o espaço programado (racionalmente projetado a partir do ideário que caracterizou o Movimento Moderno) e a instância vivida da cidade (modelada pelo cotidiano e por suas manifestações sígnicas). O embate entre o programado e o vivido pode ser metodologicamente flagrado a partir de deslocamentos feitos à deriva, orientados por manifestações comunicativas, e sua análise abrange principalmente as características de visualidade que, indo além da descrição e análise fenomênica, constroem-se como visibilidades e comunicam distintos modos de viver. Este trabalho consiste, assim, na investigação do programa moderno relacionado ao morar e de sua apropriação pelo uso cotidiano (o habitar), a partir de imagens flagradas em São Paulo e em Berlim, especificamente no Copan e no Niemeyer-Haus, edifício projetado por Niemeyer no Hansaviertel. Estas imagens, entendidas como signos de visualidades e visibilidades, são continuamente construídas pelos habitantes que, neste contexto, configuram-se como transformadores ordinários dos planos, ou seja, inventam (transcriam) cotidianamente lugares do habitar. Trabalha-se principalmente com a hipótese de que estas apropriações pelos usuários podem promover uma incessante renovação comunicativa urbana, capaz de engendrar o conhecimento da cidade a partir do habitar como ato cultural. Os autores e conceitos relevantes envolvem as relações entre espaço programado e cidade vivida, e as noções de visualidade e visibilidade desenvolvidas por Lucrécia Ferrara; a caracterização do cotidiano e suas maneiras de fazer, presente nos estudos de Michel de Certeau, Milton Santos e Jane Jacobs; o diálogo entre o morar e o habitar como invenção/transcriação a partir das ideias de Haroldo de Campos e Julio Plaza; e o horizonte semiótico de C.S. Peirce, que guia o desenvolvimento desta pesquisa