Violência
O MUNDO DA BOLA. A PROIBIÇÃO DO FUTEBOL DE MULHERES EM DIFERENTES CAMPOS
Esse artigo busca levantar questões e tecer comentários acerca das proibições que recaíram sobre a prática do futebol de mulheres em diferentes partes do mundo. Sobretudo, como principais estudos de caso, no Brasil e na Inglaterra, países que possuem grande proximidade com o futebol masculino. Dessa forma, esse trabalho faz uso da perspectiva de História Global para pensar as proximidades e os afastamentos sobre as justificativas que culminaram com o cerceamento da mulher em esportes como futebol. Além disso, a perspectiva de História do Corpo também se fará presente, uma vez que, nesses discursos, mais do que proibir a prática do jogo, proíbe-se o corpo feminino de frequentar certos espaços e performar determinadas atitudes.
BEESCATS SOCCER BOYS: A LUTA CONTRA A HOMOFOBIA ENTRA EM CAMPO
O presente artigo faz uma reflexão sobre a relação entre futebol e homofobia, a partir do surgimento do primeiro time gay de futebol do Rio de Janeiro (RJ), o BeesCats Soccer Boys. O trabalho pretende analisar como se constituiu na capital carioca o movimento do futebol gay e como este movimento tem influenciado na luta contra a homofobia no país, tomando como ponto de partida o documentário “Soccer Boys”, dirigido por Carlos Guilherme Vogel, bem como os estudos relacionados à Sociologia do Esporte e à Comunicação, que evidenciam a importância do futebol para a compreensão da sociedade brasileira.
Vigiar e punir o torcedor: uma reflexão sobre as tecnologias disciplinares no contexto do futebol brasileiro e chileno
Este artigo contrapõe as medidas atuais de segurança para os espetáculos futebolísticos no Brasil e no Chile e analisa suas tecnologias disciplinares. Busca, com isso, contribuir para a compreensão das tensões, dos conflitos e das contradições presentes na regulação da violência no futebol sul-americano. Para tanto, recorre a duas técnicas de pesquisa: a revisão de literatura e a análise documental. As informações obtidas por meio dessas técnicas foram discutidas à luz do referencial teórico proposto por Michel Foucault. Entre outras coisas, o artigo conclui que, a despeito das diferenças entre os dois países, as medidas em questão buscam exercer um controle panóptico sobre os torcedores e docilizar seus corpos, tornando-os úteis economicamente e obedientes politicamente.
“Os pit bulls estão sem coleira”: as intervenções do poder estatal e a mudança de comportamento dos integrantes de um subgrupo pertencente a Torcida Organizada Imperial
Este artigo descreve as medidas adotadas pelo poder estatal para diminuir e conter a violência entre os torcedores organizados dentro e no entorno dos estádios de futebol. Após a promulgação do Estatuto de Defesa do Torcedor, da reforma do estádio conhecido como Mineirão e a implementação dos Juizados Especiais Criminais no interior dessas localidades, observamos uma mudança de comportamento dos jovens pertencentes aos pit bulls – um subgrupo da Torcida Organizada Imperial na cidade de Belo Horizonte, constituído para defender e proteger os simbolismos da torcida organizada com lutas físicas ou corporais. Através da observação participante e de entrevistas em profundidade com os membros dos pit bulls, constatamos que eles adotaram um sistema de controle informal no interior do próprio subgrupo punindo os jovens que não apresentam as condutas ou os comportamentos considerados por eles como adequados nos mais diversos espaços da metrópole.
Espetáculo futebolístico e associativismo torcedor no Brasil: Desafios e perspectivas das entidades representativas de torcidas organizadas no futebol brasileiro contemporâneo
O presente artigo traça um panorama das formas de torcer no Brasil, a partir do advento do profissionalismo esportivo na década de 1940, e contextualiza a conjuntura político-institucional do futebol brasileiro nos últimos quinze anos (2001-2016). A proposta é examinar as estratégias de atuação de entidades representativas de torcidas organizadas no período mais recente, em meio à intensificação dos processos de elitização dos estádios, de criminalização das associações torcedoras e de exclusão jurídica de vários agrupamentos dos estádios. O material levantado e relatado a seguir sistematiza observações de campo realizadas pelos autores em fóruns de debate promovidos pelo Ministério do Esporte, em parceria com a Associação Nacional de Torcidas Organizadas de Futebol do Brasil (Anatorg), desde o ano de 2010. A descrição compreende também uma articulação entre o universo futebolístico atual e a cronologia da vida coletiva nacional na contemporaneidade, em meio a crises econômico-sociais e a manifestações de rua que eclodiram no país desde as chamadas “Jornadas de Junho” de 2013.
A Paixão como Confronto: disputas discursivas sobre o ato de torcer
| Desde o começo do século XX, torcer por um time de futebol se tornou um hábito comum para muitos brasileiros. Todavia, as formas de torcer se transformaram diversas vezes desde então, envolvendo diferentes agentes e produzindo novas identidades torcedoras. A partir de meados dos anos 1960, começaram a se formar as torcidas organizadas atuais, que mudavam as formas de associativismo torcedor predominantes até então, gerando novas práticas torcedoras e relações sociais. Esses grupos passaram por um significativo processo de burocratização de suas atividades e estruturas internas, ao mesmo tempo em que se desenvolveu uma dinâmica de confrontos violentos entre eles, o que assumiu um papel central nas representações coletivas a seu respeito. A imprensa e outros setores da sociedade civil passaram a exigir o controle dessa violência, ao que o Estado respondeu com a lei 10.671, de 2003, conhecida como o Estatuto de Defesa do Torcedor. Com a realização da Copa das Confederações em 2013 e a Copa do Mundo em 2014 no Brasil, a Fédération Internationale de Football Association (FIFA) passou a se inserir no debate, lançando códigos de normas para guiar o comportamento torcedor durante as competições. Nessa discussão, emergiram disputas pelo próprio significado do torcer, como palavra e como prática social. Essas disputas constituem o objeto de presente tese, e serão abordadas a partir da Análise do Discurso de linha francesa, da teoria dos processos civilizadores de Norbert Elias e da analítica do poder de Michel Foucault, contando também com contribuições da Teoria dos Atos de Fala desenvolvida por John L. Austin e John Searle e da teoria da estruturação de Anthony Giddens. Foram analisados os discursos do Estatuto do Torcedor, dos Códigos de Conduta da FIFA, da Carta de Brasília, do Relatório final da Comissão Paz no Esporte, de três cartilhas de divulgação do conteúdo do Estatuto do Torcedor, de 124 artigos de opinião, de 170 reportagens de jornal, de 23 sites de torcidas organizadas, dos sites do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, do portal virtual Jusbrasil, dos sites do Instituto Nacional do Torcedor e da Associação Nacional das Torcidas Organizadas. O propósito é compreender como tais discursos estruturam essas disputas atualmente, como eles produzem e transformam significados, legitimam e contestam relações de poder e formas de torcer. Conclui-se que existem duas ideologias principais em conflito, que atribuem significados distintos aos termos-chave da formação discursiva (torcer, torcedor, torcida, estádio, futebol etc.) e às transformações atuais do público de futebol. Essas modificações aliam mecanismos biopolíticos e disciplinares a um processo de civilização dos comportamentos de torcedores, fazendo parte de uma nova fase da institucionalização do esporte, capaz de produzir novos espectadores mais orientados para o consumo, em detrimento dos fãs associados às formas de torcer consideradas mais tradicionais. |
Entre o ethos e a lei: policiais civis do Rio de Janeiro, seus valores e práticas
| Este trabalho tem como objetivo analisar o manejo de valores morais situados durante as práticas profissionais dos policiais civis do estado do Rio de Janeiro. Para que as descrições dos quadros das ações sociais possam ser minimamente fiéis, foram realizadas entrevistas abertas, observações participantes e revisão bibliográfica. Visando delimitar a análise, foi proposto o conceito de situação policial, definindo-se por meio dele as circunstâncias úteis à pesquisa. Como a atividade policial civil se caracteriza por estar vinculada à lei, se propôs uma reconceituação para nomos, mantendo seu sentido de uma demarcação normativa tomada por basal, mas considerando de modo específico as obrigações individuais dele decorrentes. Assim, os valores cívicos foram metodologicamente estabelecidos como referencial comparativo do agir, sendo os demais arranjos axiológicos tidos em contraste a eles. Por meio desta escolha se visou possibilitar que as circunstâncias apresentem mais claramente os conflitos entre ordens de grandeza contingentes e, por meio das alternâncias entre dispositivos legais e dispositivos culturais, retratem de modo abrangente a vida social dos agentes tomados por objeto de estudo. Como a consideração de participação ativa numa “guerra ao crime” permeia atualmente a cultura policial civil carioca, a delimitação do ethos compartilhado pelos agentes toma por referência valores pretensamente bélicos, vinculados a variados padrões normativos. Isso acaba se chocando situacionalmente com os valores cívicos, negando-os em situação e estabelecendo arranjos circunstanciais que justificam e enquadram as ações em princípios considerados justos e adequados que buscam ser, em decorrência, legítimos. Para testar os cabimentos teóricos e metodológicos propostos nas duas primeiras etapas da pesquisa, na terceira parte são apresentados reportes (os mais diretos possíveis) das observações participantes, para que sirvam como retratos das situações analisadas. |
Entre o "fogo cruzado" e o "campo minado": uma etnografia do processo de "pacificação" de favelas cariocas
| No final de 2008, uma nova forma de policiamento em favelas cariocas alterou profundamente a rotina e a sociabilidade dos seus moradores. Essa modalidade de policiamento foi chamada de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). O objetivo central dessa tese é analisar os impactos e as consequências que esse projeto teve sobre a vida dos moradores dos territórios pacificados . Baseado em um trabalho de campo de quase quatro anos nas primeiras favelas pacificadas , a saber, Santa Marta e Cidade de Deus, eu tomo UPP como um objeto problemático permanentemente investigado por aqueles que foram por ela afetados diretamente. Essa tese é, nesse sentido, uma investigação que incide sobre as investigações daqueles que viveram a UPP como problema. Como conclusão, sustento que um dos principais impactos da implementação das UPPs foi uma mudança na fenomenologia do habitar da favela, mudança essa que se deu sobretudo pela emergência do que chamo de regime de campo minado . A partir disso, sustento que o ambiente dessas favelas após a pacificação passou a ser caracterizado pela coabitação, com oscilações intensivas e arranjos criativos, entre a antiga lógica do fogo cruzado , baseada no medo constante dos tiroteios, e a lógica do campo minado , baseada no monitoramento constante do ambiente e no medo de possíveis contaminações , geradas pelo contato entre moradores, policiais e traficantes que agora dividem o mesmo território 24 horas por dia. |
Governo de mortes: uma etnografia da gestão de populações de favelas no RJ
Esta tese é construída a partir do interesse em compreender determinadas angulações da engrenagem governamental de gestão das mortes dos moradores de favelas no Rio de Janeiro. O momento da efetuação do disparo da arma de fogo que atinge o morador de favela demarca a produção de um recorte analítico do processo de gestão dessas mortes, considerando papéis e registros oficiais, sendo o laudo cadavérico acionado enquanto documento a partir do qual são exploradas outras movimentações (burocráticas ou não) que compõem o inquérito policial e o processo judicial de casos de homicídio ocorridos durante intervenções militares em favelas. As formas como chefes e agentes de Estado se referem a essas mortes em declarações públicas, assim como as repercussões sobre o enquadramento dessas mortes por entre diferentes instâncias estatais, referenciam o quadro político enfocado na tese, cuja elaboração decorre de um trabalho de campo pautado pela agenda dos familiares de vítimas de violência institucional. Trata-se do resultado de uma experiência de pesquisa junto a coletivos políticos protagonizados por esses familiares, entendendo seus enfrentamentos, demandas, dores e conquistas enquanto orientação primeira para a conformação do olhar sobre forças de estado que produzem legitimidade e legalidade para mortes completamente ilegítimas. Palavras-chave: Esta tese é construída a partir do interesse em compreender determinadas angulações da engrenagem governamental de gestão das mortes dos moradores de favelas no Rio de Janeiro. O momento da efetuação do disparo da arma de fogo que atinge o morador de favela demarca a produção de um recorte analítico do processo de gestão dessas mortes, considerando papéis e registros oficiais sendo o laudo cadavérico acionado enquanto documento a partir do qual são exploradas outras movimentações (burocráticas ou não) que compõem o inquérito policial e o processo judicial de casos de homicídio ocorridos durante intervenções militares em favelas. As formas como chefes e agentes de Estado se referem a essas mortes em declarações públicas, assim como as repercussões sobre o enquadramento dessas mortes por entre diferentes instâncias estatais, referenciam o quadro político enfocado na tese cuja elaboração decorre de um trabalho de campo pautado pela agenda dos familiares de vítimas de violência institucional. Trata-se do resultado de uma experiência de pesquisa junto a coletivos políticos protagonizados por esses familiares, entendendo seus enfrentamentos, demandas, dores e conquistas enquanto orientação primeira para a conformação do olhar sobre forças de estado que produzem legitimidade e legalidade para mortes completamente ilegítimas.