A Organização da Zona: notas etnográficas sobre relações de poder na zona de prostituição Jardim Itatinga, Campinas - SP
Este trabalho tem como objetivo analisar alguns elementos constituintes do ordenamento político e econômico do bairro Jardim Itatinga, considerado a maior Zona de Prostituição da América Latina. Este bairro é resultado de uma operação bem orquestrada envolvendo polícia e prefeitura na metade da década de 1960 para confinar a prostituição da cidade de Campinas. A "Zona" é um produto do confinamento, mas é também uma "noção", um espaço "criativo" de múltiplas sociabilidades e relações inscritas num território que tem como pano de fundo o comércio sexual.
O confinamento, que pretendia "confinar para regular", serviu para criar, expandir e complexificar a dinâmica do trabalho sexual, ampliando consideravelmente a gama de serviços e mercados existentes ali. Também potencializou uma apropriação da prostituição como uma prática legítima que busca romper os limites físicos e simbólicos impostos à Zona.
Dentro dessa abordagem, me preocupo com as diversas relações de poder inscritas naquele território, especificamente àquelas relacionadas às diversas atividades econômicas existentes ali. Assim, procuro perceber algumas relações de poder envolvidas no trabalho sexual -- e da rede de serviços que a acompanha --; a sua relação com a criminalidade ("pessoal do bang") e os espaços de agência das trabalhadoras sexuais dentro de contextos de conflito.
Também procuro entender como a Zona é representada para fora de seus limites físicos por mulheres que participam de uma Associação que busca o reconhecimento dos direitos da Profissionais do Sexo (Associação Mulheres Guerreiras). Argumento que há uma recusa em aderir à "zonas simbólicas confinamento" de modo que essas mulheres levam para o espaço público toda a corporalidade e aprendizados vivenciados na Zona.