Antropologia
Um diálogo sobre ausências
As imagens que apresento aqui é parte de uma caminhada que não tem a pretensão de se esgotar, há muito que se caminhar ainda. Essas fotografias, corpos imageticamente materializados, foram realizadas no carnaval de Salvador (2020) e na Feira de São Joaquim ou Água de Menino, como popularmente é conhecida, no mesmo ano. É um testemunho ocular como diria Peter Burke (1937) ou podemos pensar como a materialidade de uma experiência corpórea negra diaspórica. A fotografia como bem advoga Boris Kossoy (1941), no seu livro “História & Fotografia” é o atravessamento ou o filtro do fotógrafo. Corpo, espaço e tempo se entrecruzam nesse ensaio para pensarmos sobre vulnerabilidade, o que Fanon (1986) vai chamar dos “condenados da terra”, corpos cansados e marcados pelo tempo existencial.
Por uma etnocaminhada em criação: modos de compor outras grafias festivas espetaculares.
O texto busca promover um diálogo sobre a poética do corpo caminhante presente na Festa de São Marçal ou Encontro dos Bois, como também é conhecida a festa que acontece anualmente no dia 30 de junho, no bairro do João Paulo, em São Luís – MA. O deslocamento, apesar de possuir um trajeto retilíneo, característico da configuração festiva do bairro, apresenta muitas curvas e encruzilhadas inventivas, poéticas, espetaculares e imagéticas, (des)mobilizando diversos territórios simbólicos que serão ressaltados nesta caminhada etnocenológica. A discussão que se pretende realizar é pensar como a caminhada reinventa modos de produzir existências, sobretudo como os corpos experimentam a cidade e atravessam as camadas densas e tensas, tornando a paisagem festiva um espaço de trocas afetivas e criação nômade.
A Antropologia do espectro de uma guerra híbrida: entrevista com Piero Leirner
Em 9 de junho de 2021, Juliana Caruso, Arthur Fontgaland e Ana Fiori, editores da Revista Ponto Urbe, entrevistaram o antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos, a respeito de sua longeva trajetória de pesquisa junto aos militares brasileiros, cujos resultados tiveram como fruto recente o livro O Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida: militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva antropológica (Ed. Alameda, 2020), buscando ao mesmo tempo recuperar a trajetória desde sua formação inicial, incluindo seus interesses sobre hierarquia e parentesco no Alto Rio Negro, e delinear horizontes futuros para o cenário político brasileiro.
Juventude periférica, gênero, sexualidade e violência de Estado: notas a partir de uma família LGBT na cidade de São Paulo
Esta análise busca explorar etnograficamente questões relacionadas à Família Stronger, coletivo LGBTQIA + da periferia de São Paulo. Famílias LGBT como a Stronger surgem no bojo de um processo de ocupação e deslocamento dissidente no espaço urbano da metrópole paulistana, especialmente a partir do fim do século XX. No âmbito de uma longa pesquisa etnográfica com essa família, exploro alguns de seus caminhos na construção de laços políticos relacionados à vivência citadina, inclusive em sua relação com outros coletivos. Argumento que a ocupação de determinados espaços opera como fator importante na constituição de sentidos geracionais dentro do grupo. Por fim, analisando dois casos distintos de assassinato de adolescentes que representaram nós cruciais no processo de politização das famílias LGBT e detonam uma ocupação específica do espaço público, reflito sobre como a participação política da Família Stronger é Autor0000-00-00T00:00:00Aconstruída em relação à violência contra corpos LGBTQIA+ nos espaços citadinos.
O fazer etnográfico em Câmara Cascudo: memória, fontes e interlocutores
Este artigo analisa o trabalho etnográfico de Câmara Cascudo, a partir do uso que este autor faz das memórias infantis, das maneiras como se relaciona com as fontes e das relações que estabelece com os interlocutores. Bem como, discute os debates de Câmara Cascudo com o conceito moderno de etnografia. Autor de envergadura e de vasta produção de estudos da “cultura popular” brasileira, Cascudo realizou muitas pesquisas nas quais fez uso do método etnográfico, especialmente, junto às populações do Nordeste do Brasil. E é sobre parte considerável dessas obras etnográficas que nossa análise se desenvolve. Conclui-se que a obra etnográfica de Cascudo se constrói a partir de posturas políticas, intelectuais e de flexibilidades metodológicas que pavimentam suas relações com a memória, com seus interlocutores e com as fontes, visando salvaguardar o mundo idílico do sertão nordestino.
Imprensa e espaço urbano: a campanha do Jornal do Brasil pela urbanização da Barra da Tijuca (RJ) nos anos 1960
Neste artigo, debruço-me sobre a discussão feita nas páginas do Jornal do Brasil (JB), em meados dos anos 1960, a respeito do desenvolvimento urbano da Barra da Tijuca, bairro localizado na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Argumento que esse jornal construiu, a partir de um conjunto de reportagens, o imaginário simbólico da Barra da Tijuca como o Rio do futuro. Tais textos mobilizaram uma retórica de acusação e interpelação do poder público requisitando, para a região, políticas urbanísticas. Há no cerne da argumentação das reportagens o anseio de modernização do espaço urbano do Rio de Janeiro, que caracteriza parte das expectativas sociais do contexto. Esses imaginários de futuro constroem materialidades no espaço, têm efeito social na medida em que engendram políticas e mobilizam o poder público.
A cidade como biblioteca: percursos de costura do livro e da leitura no tecido urbano
Neste texto miramos um conjunto de ações que ‘desencastela’ o corpo do leitor da biblioteca tradicional e outros santuários correlatos, permitindo-nos divisar um leque de relações sociais entretecidas por livros e leitores em circulação na cidade. Ninhos de Livros, Bibliotecas Livres ou Sem Paredes, Gelotecas e iniciativas afins fomentam práticas mobilizadas pelos gestos de ler e “libertar” livros. Os livros e as ações nas quais se imiscuem são as intervenções/armadilhas que nos auxiliam a pensar a cidade como mais do que um mero pano de fundo. Nessa perspectiva, a territorialidade da cidade é espaço ampliado de reflexão, crítica e investigação, palco de alternativas aos circuitos oficiais e elemento fundamental no estabelecimento do corpo a corpo da obra com o público.
Fugindo do caos: o proselitismo terapêutico na vida política do Brasil atual
O artigo a seguir consiste em um ensaio que versa sobre a terapeutização dos corpos nos contextos urbanos atuais. Dialoga com o tema de acordo com as abordagens teóricas e discussões presentes na Antropologia do corpo e da saúde, sobretudo, aquela antropologia que se dedica a compreender os passos de atores e redes científicos que buscam por medicalização alternativa da vida cotidiana em resposta à crise política-institucional que assola o país. Para tanto, procuro discutir algumas reflexões sobre esse assunto derivadas da pesquisa etnográfica que realizo em clínicas e centros de terapias alternativas cujas distintas trajetórias dos interlocutores participantes se encontram no mesmo contexto: o da medicalização dos corpos. Em seguida, busco depreender reflexões críticas sobre as transformações contemporâneas das moralidades em torno da medicalização e da terapeutização voluntária e individual do próprio corpo. O ensaio que se segue problematiza os mais novos discursos e práticas que preconizam agenciamentos centrados no indivíduo quando se trata de impasses coletivos, políticos e de saúde pública no país.
Festa e Cidade: poéticas entrecruzadas
Este artigo procura, na experimentação e na exploração sensível, a aproximação dos e nos espaços da urbe por meio de perambulações realizadas pelo centro histórico de Sabará, em Minas Gerais, durante a feitura e a destruição dos tapetes de serragens, na festa católica do Corpus Christi. Visa constituir correlações entre a festa e a cidade como um possível cenário para perceber as poéticas presentes em seus entrecruzamentos. Por intermédio da polifonia das festas, uma investigação etnográfica foi desenhada, mediante olhares e vivências corporais sobre a porosidade nas camadas de experiências que se sobrepõem diante dos tempos e lugares da cidade. Assim, questiona-se o que as festas são capazes de delinear para além dos olhares que circundam as ruas em meio às dinamicidades, memórias e silêncios. Busca tornar visível a maneira como os sujeitos elaboram e se apropriam das festas e ruas, na pretensão de compreender elementos capazes de auxiliar o aprendizado das culturas locais e dos usos das cidades.