Resumo
Esta pesquisa histórica trabalha com a história urbana de duas cidades do estado de Goiás: a cidade de Goiás (antiga capital do estado) e Goiânia (atual capital do estado de Goiás). O período de tempo escolhido é de 1930 a 1945, pois engloba as transformações ocorridas com a revolução de 30, a transferência capital, de Goiás para Goiânia, bem como marca um momento de transformações políticas. Para tanto, tentaremos observar a memória de ambas as cidades. Nesse caso, nossas fontes históricas serão: os relatos orais dos moradores da antiga capital à época; os relatos de moradores e/ou visitantes de Goiânia naquele período histórico; monumentos urbanos de Goiás(cidade) e Goiânia (atual capital) que podem ser vistos em fotografias do período; documentos impressos da época. Nesse sentido, tentamos perceber os elementos que compõem uma cidade. A cidade, local de interação, mantém na memória, sua história: praças e igrejas carregam através dos tempos, uma representação daquilo que ela é . As representações: construções a partir da realidade vivida, imagens edificadas através das experiências dos indivíduos, são primordiais para a nossa abordagem acerca da memória urbana, pois os prédios e locais públicos estão cheios de sentimentos de indivíduos, e são neles que se lembra, a todo momento, a história de uma cidade. A iconografia aparece então, como veículo dessa memória que buscamos, da necessidade que temos em manter uma unidade, de criarmos no local que moramos, elementos inerentes à nossa vida. As fotografias de época nos reportam ao passado e dão a sensação de vida nos traços de seus autores - a imagem é uma fonte cheia de sentimentos e intenções. Os relatos orais são também um caminho interessante. Através das falas das pessoas mais velhas, encontramos diferenças, pensamentos que forma partilhados ao longo da história local, relatos sofridos e permeados de mágoa. Foram entrevistados dois grupos: no primeiro, temos as falas dos moradores da antiga capital (a cidade de Goiás) à época; no segundo, observamos os relatos daqueles que acompanharam o surgimento da nova capital - pessoas do entorno e de outras cidades do estado. O estado de Goiás, que desde o fim do ciclo mineratório vinha vivendo sob o estigma de um estado decadente e atrasado, carregava consigo a ânsia de poder se tornar um local de grandes possibilidades. Goiás, a cidade que representou o poder político do estado de Goiás até a década 1930, foi cenário de várias disputas políticas até esse momento. Durante cerca de vinte anos, a família Caiado, grupo de indiscutível poder político na região, esteve no comando administrativo, direcionando a vida política e econômica de lá. A favor do desenvolvimento, mas preocupada com seus próprios investimentos, a família Caiado, que era ligada ao meio agrário, cerceava o crescimento de outros setores agrários do estado, também muito promissores: o sul e sudoeste de Goiás. A partir da revolução de 1930, o poder dos Caiado chegou ao fim, e foi nomeado interventor do estado, o médico Dr. Pedro Ludovico Teixeira. Nomeado por Getúlio Vargas, e em nome do progresso e do desenvolvimento interno do país, Dr. Pedro retomou um antigo projeto de transferência da capital, e partiu para a construção da nova capital: Goiânia. A antiga capital, rodeada por morros, com casas de estilo colonial e ruas estreitas, de acordo com Ludovico, não poderia ser mais a representante política do estado de Goiás. Surgiu então o projeto de construção de Goiânia - uma cidade em local plano, com ruas largas, casas separadas por muros, seus interiores privados, separados das ruas pelos seus portões.Goiânia era um projeto que pretendia ser o oposto de Goiás. Na verdade, mantinha-se na cidade de Goiás, uma acirrada disputa política entre os Caiado e o então interventor Pedro Ludovico. Nesse sentido, a mudança da capital seria mesmo, além de todos os motivos, a efetivação de uma transformação política. Para obter êxito, Dr. Pedro já havia se unido aos dissidentes descontentes do sul e sudoeste do estado. Visando o apoio do povo, Ludovico se utilizou do desejo de progresso do povo goiano - visto pelo restante do país como um estado do atraso. Entretanto, para os que permaneceram na antiga capital à época da transferência, ficou a mágoa de quem perdeu o poder, a dor de ter sido deixada, ficou a dor de não ser mais a representante pública. Em Goiás - a cidade - permaneceram somente seus prédios e casas coloniais. As instituições foram transferidas para a nova capital: Goiânia. Restaram para a antiga capital os prédios vazios. Nos relatos dos que se mantiveram na cidade de Goiás, sentimos ora revolta, ora reconhecimeto de Goiânia, às vezes dor, em outros momentos algumas pessoas relacionam a mudança da capital à morte de entes queridos - como se a mágoa os tivesse consumido. Já nas falas daqueles que observaram o surgimento e a instituição de Goiânia, mas que estavam fora das disputas da antiga capital, nesses depoimentos encontramos desenvolvimento e progresso na atitude de Dr. Pedro. Nessa disputa política, os Caiado fora responsabilizados pelo atraso no estado: diziam os aliados de Ludovico, que para se manter no poder, os Caiado preferiam não ligar o estado de Goiás ao restante do país. Esse discurso deu certo, e o projeto da nova capital foi gradativamente recebendo apoio dos goianos. Enquanto Goiás emergia como o futuro centro de possibilidades - um novo visual para todo o estado; Goiás perdia os seus moradores - com a transferência das instituições públicas, transferiam-se também seus funcionários. A antiga capital, vazia e sem estímulo político, precisava reagir. De fato, foi no início da década de 1940 que as casas e prédios públicos com cara de colonial, que lembravam o velho, foram exaltados, para lembrar às pessoas do papel da história local. Com a transferência dos poderes, o único poder de fogo que lhe restou foi esse: o da cidade que tem história; a história do monumento urbano.