Autor Principal
Ferrara, Lucrécia D'Alessio
Local da Publicação
Campinas
Descrição Adicional
V Seminário História da Cidade e do Urbanismo
Resumo
A consciência da transformação da cidade nos leva à necessidade de refletir sobre sua memória e sobre o modo de memorizá-la, de construir a cidade memorável. Trata-se de construir, não só a visibilidade, mas as razões da memória. A memória de São Paulo antiga está dominada por estímulos sensíveis e sinestésicos que podem ser resumidos pelo visual das grandes extensões percorridos a pé ou do passeio protegido pelas árvores e envolvidas. Pela intensidade olfativa decorrente do cheiro dos animais que tracionavam os antigos bondes ou pela combustão da gasolina ou de outras químicas responsáveis pelo movimento dos primeiros e dos raros veículos motorizados. A visibilidade e o olfato eram secundados pela tatilidade da espera e do encontro nos pontos de passagem obrigatória ou percurso a pé pelas ladeiras com calçadas de passeios irregulares. Através da visão, do olfato e da tatilidade vivia-se a cidade como simples sensação. Mas o memorizar, produzir memórias não se faz sem um longo percurso contraditório que começa pela constatação de que a lembrança depende do reconhecimento da mudança para existir a possibilidade de uma leitura coerente da cidade onde poderão dialogar livremente as cidades de ontem e de hoje. O primeiro passo dessa construção é perceber que as relações da cidade com o tempo e espaço podem produzir distintas caracterizações do passado. Uma dupla caracterização da memória: em primeiro lugar, o espaço é marcado pela memória com a clara fixação de um tempo perdido em confronto com o presente; o segundo trata da memória como construção do espaço no tempo colocando em confronto o presente e o passado para construir, entre eles uma relação produtiva. No primeiro caso, surge a imagem e sua visibilidade: são os lugares dignos de memória, que autorizam a história institucionalizada e dominada pela coleção dos símbolos nacionais flagrados em descrições. O segundo caso está dominado pelas narrações onde o passado é lembrado sem levar em consideração a relevância de uma referência real ou fictícia; isto é, a narração cria uma ambiguidade entre o que pode não ter sido real, mas assume essa condição pela memória onde o tempo e as lembranças constroem o espaço da cidade; este espaço é aquele do lugar capaz de dar ao homem a capacidade de apropriar-se e pertencer a uma cidade, descrever ou narrar são as duas modalidades com que a cidade enfrenta a mudança e dá ao homem a condição de suportar ou superar suas perdas. No suportar, a volta ao passado significa resgatar e reviver o tempo auratizado pela moral de um bem perdido; no superar, a volta ao passado significa entender o presente marcado pela mudança e resgatar a memória como corretor da rota que que o desenvolvimento e a modernidade impõem a cidade contemporânea, trata-se de uma modalidade mais operativa que recoloca a cidade como forma de aprendizagem capaz de alterar comportamentos e influenciar ações mais consequentes.Considerando-se a transformação vertiginosa das grandes metrópoles globais como São Paulo, pergunta-se: como será possível registrar a experiência do passado e aprender com ela; como será possível narrar as histórias de uma cidade que está existindo tão intensamente e já não tem tempo para ouvir; como será possível identificar hábitos fabricados através de um código de valores, não raro alienígena ou produto de interesses imperceptíveis e divulgados pela imagem pela imagem sem cerimônia da televisão; como resgatar a doxa cotidiana, duradoura mas informal, se ela foi substituída por valores descartáveis que precisam ser continuamente revistos a fim de continuar a atrair o consumo; como resgatar a cidade que não pode contar mais; como descobrir uma cidade que esqueceu de identificar-se; como fazer para resgatar a memória da São Paulo atual que, no incessante trabalho de construir-se, perdeu a raiz da sua história?
Método e Técnica de Pesquisa
Qualitativo