"Hipsterização" no centro de São Paulo: consumo, trabalho e produção da cidade
Este trabalho explora o recente estabelecimento de uma "cena hipster" no bairro da Vila Buarque, na região central de São Paulo. Tal fenômeno, que aqui denomino "hipsterização", é caracterizado por uma crescente atração - tanto para moradia como para lazer e consumo - de jovens adultos urbanos de camadas médias superiores genericamente classificadas como hipsters. O termo se refere a pessoas ligadas a atividades profissionais tidas como "criativas" (tais como comunicação, tecnologia, inovação e artes), majoritariamente alinhadas a um espectro político mais progressista, e que encontram na região central uma infraestrutura, diversidade sociocultural e redes de lazer e sociabilidade que não apenas são importantes para a plena realização de seus estilos de vida, como também não podem ser encontradas em outros bairros da cidade. A pesquisa tem como ponto de partida uma série de novos negócios (tais como restaurantes, bares, livrarias, cafés, lojas de decoração, moda e design) abertos nos últimos anos no bairro e que são voltados (e foram criados por) pessoas potencialmente classificáveis como hipsters, e que oferecem produtos e ambientes que prometem o alto nível de sofisticação e especialidade buscado por este perfil, que busca produzir formas de distinção por meio da evitação do consumo de massa. Por meio de uma ampla revisão bibliográfica e a partir de modalidades de observação participante, é apresentado um histórico do bairro e dos recentes acontecimentos que têm promovido uma ressignificação da região central da cidade para esse público, são discutidas as acusações de que a "hipsterização" esteja vinculada a processos de segregação urbana e gentrification. Além disso, é apresentada uma discussão sobre os significados implícitos associados à categoria hipster - que, ao mesmo tempo em que são vistos como mediadores cosmopolitas com alta sensibilidade a tendências globais de comportamento e consumo, também são acusados de serem elitistas e "gentrificadores". Por fim, também é desenvolvida uma análise sobre as relações entre hipsters, a abertura de novos estabelecimentos comerciais, e a vinculação dos responsáveis por esses novos negócios e o mercado de trabalho.