Percursos, significados e permanência das favelas cariocas (1930-1964)
Este trabalho tem como tema os caminhos e significados das favelas da cidade do Rio de Janeiro no período de 1930 a 1964. Na abordagem seguida, considera-se os aglomerados favelados como parte da cidade, desenvolvendo, portanto, relações de caráter local e "microlocal" profundamente inseridos nos processos urbanos. Assim, enquanto elemento urbano, integrado à dinâmica local, registra-se empiricamente a presença das favelas já disseminada pela cidade, anteriormente a 1930. Considera-se ainda que esta disseminação deve-se a algumas relações com processos que reforçaram as condições para a permanência das favelas, na medida em que envolveram ou criaram, em determinados momentos, vínculos próprios da cidade. Dentre os processos urbanos, particulariza-se a expansão do mercado imobiliário, o desenvolvimento industrial do Rio de Janeiro, e as características de conjunturas políticas locais. No caso das relações com o processo imobiliário, discute-se a pertinência de considerar a origem de parte das favelas enquanto integradas na lógica do mercado rentista, e o seu desenvolvimento em função de algumas transformações mais importantes deste mercado. As relações entre favelas e indústrias também são observadas no quadro de sua permanência em alguns locais, assinalando-se as características da favela enquanto "operária". Por fim, registra-se que as relações da favela com os processos da cidade, e , mais uma vez, a sua permanência como ator importante, estão profundamente ancoradas num contexto local. Neste sentido acentua -se a importância das relações que favelados e suas representações desenvolvem com o poder público. Observa-se, particularmente, articulações em momentos históricos específicos, que lhes permitiram alguns espaços, e que se passaram também através de vínculos e canais formais. Conclui-se que a favela longe de representar um contraponto à cidade, na verdade situa-se mais como uma de suas interfaces.