Essa dissertação tem como objeto de estudo a valorização imobiliária pela prática dos agentes sociais em São Paulo - da concepção do "produto imobiliário" à construção e apropriação - com atenção aos conflitos que daí emergem. Procuramos apresentar alguns movimentos recentes na atividade imobiliária brasileira, mais especialmente em São Paulo, através da transformação das grandes empresas em sociedades por ação, o processo incipiente de centralização de capitais, a crescente "participação" de capital financeiro mundializado e a recomposição do sistema de crédito imobiliário no Brasil. Nesse contexto, a produção crescente de condomínios verticais padronizados, voltados para consumidores "por segmento de renda", implica a reestruturação socioespacial aonde "chega" e, em última instância, a reestruturação da cidade.
A produção capitalista do espaço historicamente baseou-se na prática social da propriedade privada da terra e construção na forma-canteiro, tais fundamentos implicam um processo de valorização particular. A construção se dá pela divisão manufatureira do trabalho que pressupõe a concepção anterior do produto fora do canteiro. Ao mesmo tempo, no âmbito urbano, a elevação dos preços de imóveis e terrenos aparece coordenando a (re)organização socioespacial pela distribuição de usos e determinação de quem pode se apropriar de que espaço e em que momento.
Trata-se do fetichismo da forma-mercadoria exposto por Marx, mas de uma mercadoria especial - o espaço como totalidade em fragmentos, propriedade imobiliária, meio de hierarquizar e segregar - que toma forma de "realidade autônoma (na aparência) da coisa do dinheiro". Hoje, cabe entendermos a origem da "nuvem" de capital fictício - que paira sobre o mundo e parece se autoalimentar - como prática social no cotidiano do escritório, do canteiro de obras, da vida em mais um condomínio.
Na era do capital fictício, a produção e apropriação da cidade, tendo como finalidade principal a valorização do capital, toma forma cada vez mais social - ao se constituir na ação do conjunto da sociedade - e, ao mesmo tempo, antisocial - ao rebaixar e quase eliminar do horizonte a possibilidade da construção (como obra) e da fruição da cidade pelos seus habitantes.