Arte e estética
Quando as relações se expressam nos muros: pixadores em Belo Horizonte, pixações de Belo Horizonte
O presente artigo problematiza as complexas relacionalidades inerentes ao universo da pixação da capital mineira, analisando as múltiplas formas de relações pessoais estabelecidas pelos pixadores, bem como as relações mantidas por estes agentes com a paisagem urbana e com uma gama diferenciada de materiais e utensílios. Para tanto, além da prática da observação participante, nos debruçamos sobre uma gama diversificada de materiais etnográficos. Pautado por autores que se debruçaram em torno do conceito de socialidade (STRATHERN, 1996, 2005; FERRARI, s/d), neste artigo, pretendemos contribuir com a literatura que vem sendo produzida acerca dos estudos do fenômeno da pixação (PEREIRA, 2005; FRANCO, 2009; SOARES, 2013), mas que se debruçaram sobre outros problemas e a partir de diferentes referenciais. Portanto, é por meio deste enfoque distinto que advogaremos a tese que, no caso da pixação de Belo Horizonte, não há como compreender as pixações somente pelas pixações, ou os pixadores exclusivamente a partir de suas relações com os pixadores.
Praça da Estação: memórias e sociabilidade em Juiz de Fora (MG)
"A vontade de tocar" Estratégias de uma banda independente para se manter ativa
Neste relato de campo, elaborado a partir de etnografia realizada por mim em interação com os integrantes de uma banda de rock da cidade de São Paulo, o Dance of Days, em que estive em shows desta banda entre fevereiro e junho de 2014, em locais de características distintas entre si, na cidade de São Paulo. A partir destes eventos, do diálogo com distintos sujeitos deste campo e de entrevista realizada com um dos membros da banda, aciono a categoria analítica circuito com as categorias nativas banda independente e do it yourself, realizando alguns apontamentos sobre as estratégias desta banda para se manter em atividade constante.
Unilabor: desenho industrial e racionalidade moderna numa comunidade operária em São Paulo
A pesquisa examina a produção da empresa Unilabor - Indústria de Artefatos de Ferro, Metais e Madeira, Ltda., de mobiliário moderno, entre os anos de 1954 e 1967 em São Paulo, tendo em vista caracterizá-la a partir dos princípios estéticos que a estruturavam. A pesquisa toma a matriz filosófica que sustentou a criação de uma comunidade de trabalho (comunidade essa em função da qual a empresa existiu) e encontra, nessa matriz, elementos de racionalidade que, julga, podem ser comparados àqueles elementos também racionais presentes na vertente construtiva da arte e da arquitetura modernas. Centra a investigação no exame do sistema produtivo da empresa e ressalta a participação dos operários na totalidade do processo de gestão - inclusive no próprio projeto do móvel - como um dos elementos fundamentais no atingimento do principal objetivo de toda a empreitada: a desalienação do trabalhador dentro de uma indústria sob a ordem social capitalista. O papel da arte moderna - em especial o concretismo paulista - e a consolidação do desenho industrial como disciplina produtiva no Brasil na década de 1950 constituem a expressão material-formal da questão e permitem a compreensão ampla do alcance socio-cultural da experiência levada à frente na Unilabor.
A Batalha da Poesia... O slam da Guilhermina e os campeonatos de poesia falada em São Paulo
O presente estudo procura acompanhar a trajetória de criação dos slams (batalhas) de poesia da cidade de São Paulo, com foco em uma batalha de poesias que acontece na Zona Leste da cidade, o Slam da Guilhermina. Os Slams ou batalhas de poesia colocam poetas em confronto, uma vez por mês, em alguns meses do ano. A descrição desse evento, suas dinâmicas próprias, relações de sociabilidade, regras, atores, sua relação com as outras práticas literárias da cidade de São Paulo, com outros Slams, com os saraus periféricos e com o movimento de literatura marginal também foram levados em conta e analisados. Os resultados remontam a possibilidade de olhar as batalhas como espaços de troca de poesias e de democratização da narrativa e da literatura brasileira.
As Rodas Culturais e a “Legalização” da Maconha no Rio de Janeiro
O objetivo deste trabalho é descrever alguns aspectos da atualização da chamada “cultura hip-hop” no Rio de Janeiro e sua região metropolitana através dos eventos aí conhecidos como Rodas Culturais. O autor, apoiado por uma bolsa do Programa Nacional de Pós-Doutorado da CAPES (intitulado “O Aprendizado das Práticas Jurídicas”), há cerca de um ano empreende etnografia nestes espaços. Em algumas Rodas Culturais específicas, o uso da maconha (Cannabis sativa L.), embora proibido pela lei, ocorre com alguma tolerância por parte das forças policiais. Ao mesmo tempo, os consumidores de maconha e os empreendedores culturais que realizam os eventos constroem e difundem uma moralidade, etiquetas e práticas que visam sua reprodução como artistas e, eventualmente, consumidores de maconha. O ajuste é fino e sofisticado o bastante para permitir que ocupem o espaço público, se institucionalizem e propiciem a oportunidade de empreendermos estudos sobre as fronteiras sempre difusas entre o legal e o ilegal, o moral e o imoral etc.
Contato Improvisação em São Paulo: Flow e Communitas na Experiência Urbana
Este artigo propõe um diálogo entre antropologia da performance e antropologia urbana, relacionando a experiência da dança contemporânea Contato Improvisação à experiência urbana. Os conceitos teóricos dos estudos urbanos de George Simmel, como a experiência fragmentada na metrópole, ganharão ressonância na antropologia da experiência de Victor Turner. Registros etnográficos e vivências de dez anos de prática desta dança mostram como as experiências de flow e communitasse articulam em meio à metrópole e às cicatrizes de historicidade do circuito onde se dança. As definições de experiência, assim como a definição do conceito de tiras de comportamento, em Schechner, ajudarão na articulação deste quadro teórico.
Nas ruas dos cinemas, cinemas nas ruas, cinemas de rua: a cidade como uma questão cinematográfica
No presente artigo abordamos as projeções audiovisuais pela cidade e uma nova geografia que se desenha através dessas performances em tempo real do que se convencionou chamar de live cinema, num momento em que as salas de exibição cinematográfica passam por situação delicada de quase total erradicação do cenário urbano carioca. Ao mesmo tempo em que o cinema ao vivo pensa a cidade, transformando-a em laboratório audiovisual, a cidade precisa (re)pensar seus cinemas de rua. Sendo assim, nossa proposta é aqui entender dois vetores importantes na exibição cinematográfica: a memória das salas de projeção e um novo lugar para o exercício da arte das imagens em movimento.
Religião, grafite e projetos de cidade: embates entre “cristianismo da batalha” e “cristianismo motivacional” na arte efêmera urbana
Neste artigo pretendo refletir sobre relações entre projetos de cidade e religião. Essa reflexão guarda uma linha de continuidade com um debate que venho conduzindo desde os anos 2000 sobre as interfaces entre religião e violência. A base empírica das análises repousa em imagens produzidas, desfiguradas e reproduzidas entre 1996 e 2013 na favela de Acari, Zona Norte do Rio de Janeiro e no registro fotográfico de grafites presentes em diferentes pontos da cidade. Essas últimas lançam luz ao menos sobre dois aspectos de meu interesse e que trarei aqui de modo ainda exploratório: 1) a confluência de projetos seculares e religiosos de cidade através de uma intervenção artística específica, o grafite; 2) as disputas internas ao segmento evangélico entre o que chamo de um “cristianismo motivacional” e um “cristianismo da batalha”.