O mito de Maria, uma traficada exemplar: confrontando leituras mitológicas do tráfico com as experiências de migrantes brasileiros, trabalhadores do sexo
Calcada em definições contraditórias do crime, a luta contra o tráfico de pessoas movimenta-se em nome da “abolição da escravidão moderna”. Neste ambiente francamente moralista, o movimento antitráfico no Brasil se sustenta na repetição de números inventados e declarações apocalípticas, sem base epistemológica alguma. Central a essa formação discursiva é a criação, no imaginário público, da imagem da experiência “típica” de uma brasileira traficada. Para melhor entender a realidade das situações geralmente rotuladas de “tráfico de pessoas” no Brasil, o presente artigo explora o mito que centraliza esse discurso e que apresenta uma narrativa tipificante sobre a experiência do tráfico. Aqui, confrontamos as histórias contadas pelo “Mito de Maria, uma traficada exemplar” com experiências de imigrantes trabalhadores do sexo retiradas de nossas pesquisas etnográficas em São Paulo e Rio de Janeiro e dos escritos de outros etnógrafos que engajam com o mesmo tópico.