Tipo de Material
Artigo de Periódico
Autor Principal
Kropf, Simone Petraglia
Título do periódico
Missionários do Progresso: médicos, engenheiros e educadores no Rio de Janeiro 1870/1937,
Local da Publicação
Rio de Janeiro ^b Diadorim
Resumo
Analisa a maneira pela qual os engenheiros pensaram a sociedade do seu tempo nos planos que elaboraram acerca do que deveria ser uma cidade ideal, bem como o lugar que nela ocupavam e que pretendiam ocupar. O corte cronológico delimita o período de maior intensidade desse debate, compreendido entre o primeiro plano sistemático de engenharia para o saneamento urbano, datado de 1874, e o governo Rodrigues Alves (1902-1906), quando foram executadas as obras para a reforma da capital federal. Procura-se evidenciar a capacidade dos engenheiros de representar a idealização de um projeto de ordem no discurso pelo qual constróem a cidade e reescrevem sua dimensão simbólica. É teoricamente suposto o olhar para a cidade como construção, enquanto o lugar onde se monumentalizam as relações sociais em um dado momento histórico. Essa perspectiva se insere na vertente metodológica de uma história cultural como concebida por Roger Chartier, que considera a especificidade do espaço próprio das práticas culturais. A análise toma por referência o universo dos membros das duas principais instituições de representação da categoria dos engenheiros na época, o Instituto Politécnico Brasileiro e o Clube de Engenharia, tendo como fontes para o estudo do seu discurso social as revistas publicadas por estas duas instituições entre 1867 e 1887, além dos pareceres elaborados por membros das comissões governamentais. O processo de modernização que se intensificava a partir de meados do século significou não apenas o alargamento do campo de inserção sócio-profissional dos engenheiros, mas também a constituição de sua identidade específica enquanto intelectuais, destacando-se nesse processo o papel homogeneizador da instituição escolar. A reforma que criou a Escola Politécnica do Rio de Janeiro expressou significativamente uma tendência ao pragmatismo na orientação acadêmica pela qual procurava-se legitimar o engenheiro como categoria social e intelectual distinta, pondo em destaque a preocupação de fazer da ciência um saber instrumental e operatório, voltado para atender às demandas do ritmo crescente de desenvolvimento econômico e social. Essa concepção se opunha à valorização da retórica e do saber livresco do grupo intelectual então dominante dos bacharéis, assumindo contornos especiais a partir da influência positivista, que valoriza o intelectual como agente legítimo para encaminhar as reformas necessárias à sociedade. Embora afirmassem a pretensão de organizar uma sociedade nova e diferente, a sua idéia de transformação se baseava no aprimoramento técnico das forças materiais da nação, não correspondendo a mudanças efetivas nas relações políticas e sociais estabelecidas. Os engenheiros partem da busca por uma representação exata e detalhada do espaço urbano baseada em teorias higienistas que identificam no meio a fonte direta dos males físico e moral dos homens. No sem entender, era necessária uma ação racionalizadora, a exemplo da empreendida pelo Barão de Haussman em Paris, apoiada no princípio do movimento, encarregado de romper os obstáculos da estagnação e da desordem normatizando todos os elementos constitutivos do espaço urbano. Acrescenta-se a esse modelo a visão da cidade como um organismo enfermo, dependente da ação dos profissionais adequados, os engenheiros, para restabelecer-se. Em seu discurso, alicerçam a composição dos elementos da cidade sob a nova forma de uma cidade ideal, baseada nas idéias de uniformidade, retilinidade, proporcionalidade e visibilidade. O primeiro elemento urbano a ser normatizado seria a rua, que deveria assumir uma forma retilínea e uniforme em sua largura, justificando-se esta afirmativa não somente nos aspectos técnicos dos melhoramentos materiais proporcionados, como também na sua função social pedagógica de guia para os hábitos e costumes da população. Em seguida, a praça, seguindo os mesmos princípios, é valorizada como importante fator para o embelezamento da cidade e gerador de saúde e movimentação da população. A lógica da racionalidade científica fundamenta e legitima uma clara estratégia de controle sobre os diferentes espaços de sociabilidade da população, em suas dimensões pública e privada, reforçando a certeza absoluta de que a direção de quaisquer ações envolvidas no planejamento das cidades deveriam ser centralizadas nas mãos dos engenheiros. Nesse sentido, observa-se que o esvaziamento da esfera do político implícito no ideal da gestão técnica da vida pública foi um forte elemento de continuidade entre a suposta ordem tradicional e o modelo instituído na Primeira República. A concepção segundo a qual a conservação da ordem é tida como precondição essencial do progresso justificou a permanência da lógica da exclusão ainda no que se refere ao tratamento dispensado aos conflitos sociais.
Referência Temporal
1874-1906