Poder local e gestão urbana
Um debate sobre o PCC: Entrevista com Camila Nunes DIAS, Gabriel de Santis FELTRAN, Adalton MARQUES e Karina BIONDI
Em 24/01/2010, o Caderno Metrópole do jornal O Estado de São Paulo publicou parcialmente uma entrevista realizada pelo repórter – e doutorando em Ciência Política na USP – Bruno Paes Manso a quatro jovens pesquisadores sobre o Primeiro Comando da Capital. Embora esta entrevista fosse inicialmente destinada ao público leitor do jornal, o denso debate suscitado entre os pesquisadores teve como produto respostas com um forte teor teórico-metodológico, indissociável dos dados que cada um vem coletando. Por essa razão, propomos aos pesquisadores – que aceitaram prontamente – que a entrevista fosse publicada na íntegra nesta edição da r@u. Pretendemos, com isso, disponibilizar ao público acadêmico o debate em torno de um assunto tão presente na vida dos moradores de São Paulo: o Primeiro Comando da Capital. Embora esta entrevista fosse inicialmente destinada ao público leitor do jornal, o denso debate suscitado entre os pesquisadores teve como produto respostas com um forte teor teórico-metodológico, indissociável dos dados que cada um vem coletando. Por essa razão, propomos aos pesquisadores – que aceitaram prontamente – que a entrevista fosse publicada na íntegra nesta edição da r@u. Pretendemos, com isso, disponibilizar ao público acadêmico o debate em torno de um assunto tão presente na vida dos moradores de São Paulo: o Primeiro Comando da Capital.
Políticas estatales y políticas del crimen: el gobierno de los homicidios en São Paulo.
La guerre au quotidien The Ordinary War. Ethnographic Notes of Urban Conflict in São Paulo (Brazil).
Cet article propose une ethnographie du conflit urbain contemporain à São Paulo. Au lieu de partir des événements spectaculaires de violence meurtrière qui brisent la routine urbaine – la police militaire tue en moyenne 2 personnes par jour à São Paulo –, nous décrirons le quotidien des acteurs impliqués dans les régimes normatifs de l’État et du « monde du crime » local, en mettant l’accent sur les conflits et les négociations entre les polices de l’État et les politiques du Premier commando de la capitale ou Pcc (la principale faction criminelle de São Paulo). On constatera que la « pacification » de São Paulo durant les années 2000 – les homicides ont chuté de 62 % dans l’État – s’est appuyée sur l’action du Pcc consistant à diffuser quotidiennement des valeurs partagées de « paix entre marginaux » et de « guerre contre le système ». Cette « pacification » n’est donc pas le fruit d’une politique étatique de réduction de la criminalité violente, mais plutôt l’expression de l’expansion sociale, économique et politique du « monde du crime.
Movimentos Sociais na Periferia de São Paulo: Narrativas da Política em Tempos de Neoliberalismo
Trabalhadores e bandidos categorias de nomeação, significados políticos
Este artigo apresenta a trajetória de uma família, moradora de uma favela na zona Leste de São Paulo, estudada entre 2005 e 2007. A partir dessa trajetória, discutem-se as implicações políticas da categorização social, muito difundida no senso comum, que opõe “trabalhadores” e “bandidos”. O texto está dividido em quatro partes. Na primeira parte, apresenta-se o contexto de transformações recentes da organização social das periferias de São Paulo. Na segunda, aparecem as características da etnografia empreendida. Na terceira, verificam-se as formas como o “mundo do crime” invade as dinâmicas domésticas das famílias de favela, e como ele passa a disputar espaço, nelas, com outros marcos discursivos socialmente mais legítimos. Na quarta parte, argumenta-se que este processo de disputa, no tecido social, é simultâneo à nomeação bipolar, no mundo público, de “trabalhadores” e “bandidos”. Verifica-se, então, a plasticidade destas categorias e seus modos de operar politicamente.
Vinte anos depois: a construção democrática brasileira vista da periferia de São Paulo
Os movimentos sociais sempre buscaram estatuto político. Este artigo conta a história de um desses atores, o Movimento de Defesa do Favelado (MDF), que desde o final dos anos 1970 até os dias de hoje atua na periferia leste da cidade de São Paulo. Ao narrar essa história de trinta anos, vinte dos quais vividos sob a "nova democracia", o texto destaca as diferentes modalidades de relação entre os setores populares e a esfera política no Brasil contemporâneo. De um lado aparecem as tentativas de diluir a fronteira que bania, durante o regime autoritário, os segmentos populares da representatividade política; de outro lado, encontram-se novas fronteiras que, ainda que sob um regime pautado pela universalidade formal de direitos, se repõem hoje entre os setores populares e o mundo político.
Periferias, direito e diferença: notas de uma etnografia urbana
Este artigo descreve e analisa as transformações da questão – analítica, teórica e política – das periferias urbanas, no Brasil contemporâneo. Enfocando o percurso de transformações no projeto de mobilidade dos “trabalhadores” que colonizaram as margens da cidade de São Paulo nas últimas quatro décadas, argumento que o conflito que se funda nesses territórios de fronteira mudou de estatuto. Se nos anos 1980 esse conflito pôde ser pautado publicamente na perspectiva de integração das periferias “trabalhadoras”, pela aposta na extensão dos direitos da cidadania como contrapartida social do assalariamento, agora se trata sobretudo de gerenciar o conflito – não raro muito violento – que sustenta a figuração pública desses territórios “marginais”. Com base em situações etnográficas, discuto algumas das consequências sociais, políticas e analíticas dessa transformação.
Margens da política, fronteiras da violência: uma ação coletiva das periferias de São Paulo
O artigo discute a relação contemporânea entre periferias urbanas e mundo político no Brasil, tomando como objeto heurístico a trajetória de mais de duas décadas de uma ação coletiva da zona leste de São Paulo. Argumento que a relação entre periferias e mundo público foi historicamente marcada pelo conflito. O percurso desse conflito, e de suas formas de contenção a partir dos anos 1970, faz ainda hoje coexistirem três dispositivos distintos, que na linha do tempo tiveram ênfases sucessivas: 1) a luta política, cuja lógica interna remeteu à aposta nos direitos da cidadania, central nas ações dos “movimentos sociais” desde os anos 1970 até o início dos 1990; 2) a gestão estatal e civil de grupos sociais das periferias, presente na lógica interna dos “programas sociais” a partir de meados dos anos 1990; e 3) a violência, presente ou latente na força repressiva voltada às periferias e regulada hoje, sobretudo, pelo próprio "mundo do crime".