Antropologia
Ayahuasca, dependência química e alcoolismo
Nesta apresentação pretendo fazer um relato da situação do uso da Ayahausca no Brasil como ferramenta auxiliar na superação da dependência química e o alcoolismo. Existem atualmente cinco instituições desenvolvendo este tipo de abordagem. Farei uma explanação mais detalhada do trabalho social realizado pela Ablusa (Associação Beneficente Luz de Salomão), organização liderada pelo psiquiatra Wilson Gonzaga, que promovia sessões de Ayahuasca (denominada “Vegetal”) para moradores de rua, em um processo de “recuperação da dignidade humana”, na cidade de São Paulo. Dentro desse processo um dos aspectos principais era o da superação da dependência química. De forma mais específica, pretendo falar sobre o papel das “mirações” (imagens mentais espontâneas experienciadas durante o uso ritual da Ayahausca) neste processo de recuperação da dependência química e do alcoolismo.
Impressões etnográficas do Tribunal do Júri do assassinato de Aline Silveira Soares: o caso da morte do RPG
Após sucessivos adiamentos, nos primeiros dias de julho de 2009 foi realizado o julgamento do “caso Aline”, atraindo novamente olhares de todo o país para a histórica cidade de Ouro Preto, cenário do terrível assassinato ocorrido oito anos antes. A capixaba Aline Silveira Soares foi assassinada em 14 de outubro de 2001 durante a tradicional Festa do 12, promovida pelas repúblicas estudantis da cidade. As circunstâncias em que a vítima foi encontrada, nua e esfaqueada, abandonada em um cemitério da cidade supostamente em posição de crucificação, foram ao longo das investigações unidas a uma série de elementos, construindo diferentes especulações e narrativas caleidoscópicas, veiculadas pelos operadores do direito e pela imprensa, alimentando o mistério em que o caso foi envolvido. Tais narrativas convergiram e foram performatizadas e avaliadas após oito anos, durante o julgamento dos quatro acusados, três rapazes então estudantes da cidade e a prima da vítima. Este julgamento foi eleito como objeto de pesquisa de mestrado em antropologia social, em uma intersecção da antropologia urbana, da antropologia da performance e da antropologia do direito. Intersecção que proporciona levantar, a partir de um estudo de caso, questões pertinentes a diferentes linhas temáticas e a temas caros à disciplina, como família, gênero, as relações entre mídia e o Estado, dimensões estéticas e simbólicas de práticas institucionais. Ao longo da pesquisa, pretende-se discutir como as diferentes narrativas produzidas em função do “caso Aline”, em suas diferentes montagens, promovem o encontro de experiências sociais e imaginários diversos em um esforço coletivo de produzir sentidos e reparação, mas que deixa um rastro de ruídos e tensões, de questões abertas. Busca-se analisar como um julgamento extraordinário, até para os atores para quem o Tribunal do Júri é parte de um cotidiano, cria em suas tensões e obscuridade epistemológica um locus para uma muldimensionalidade de narrativas que alinham elementos dispersos em uma narração capaz de preservar o inacabamento do passado e a imprevisibilidade do presente.
A Cidade de São Paulo e as Suas Dinâmicas Religiosas
Tendo em vista a relevância de eventos como o realizado pela Comunidade Canção Nova no dia 16 de agosto de 2009, para ilustrar os modos de atuação das religiosidades urbanas contemporâneas, o presente relato tem como objetivo expor uma imersão etnográfica que realizamos no “São Paulo em missão”, o qual uniu tecnologia, alianças políticas, diversidade de movimentos católicos, uso de espaços públicos para fins proselitistas e de marketing religioso.
Dia do Surdo na Avenida Paulista: Etnografando a Mobilização Política Pelas Escolas Especiais
O Carnaval Visto dos Bastidores
Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti. Carnaval carioca: dos
bastidores ao desfile. 3.ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: EdUFRJ., 2006. 268 pp
O livro é uma versão revista de sua tese de doutorado defendida em 1993 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ (PPGAS/UFRJ). Trata-se do exame em profundidade da confecção de um Carnaval, o de 1992, por uma escola de samba - no caso a Mocidade Independente de Padre Miguel – durante um ano. Entende-se aqui por Carnaval não apenas o desfile mas toda a preparação que se inicia com a escolha do enredo, logo que finda a apresentação anterior.
Vozes Marginais na Literatura
Érica Peçanha do Nascimento. Rio de Janeiro, Aeroplano, 2009. 347 pp.
Desde pelo menos os anos 1970, as periferias urbanas do Brasil estão em pauta nas discussões acadêmicas, particularmente nas Ciências Sociais. Entre os anos 1970 e 1980, estes estudos ressaltavam principalmente a precariedade de infraestrutura urbana e de serviços públicos e a situação de marginalização social da população que habitava estas áreas de expansão das grandes cidades brasileiras. Houve neste momento um grande interesse das Ciências Sociais pela realidade destes moradores da periferia das grandes cidades. O livro Vozes marginais na literatura, de certa maneira, insere-se nesta tradição de estudos sobre a periferia. Trata-se da pesquisa de mestrado de Érica Peçanha do Nascimento, realizada junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP, cujo tema é a literatura marginal produzida na periferia de São Paulo. Embora em diálogo com esta produção acadêmica, o trabalho de Nascimento vem destacar um novo movimento que surge nas periferias urbanas de São Paulo.
Entrevista: Alba Zaluar
Depois de um temporal que paralisou o trânsito e os aeroportos nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, Alba Zaluar, que ficou mais de 4 horas retida no Rio, concedeu gentilmente esta entrevista à Revista Ponto.Urbe ao chegar a São Paulo. Nosso encontro, que durou cerca de 50 minutos, ocorreu entre a chegada de Alba ao hotel e sua saída para a palestra de abertura do evento “VIII Graduação em Campo”. Por conta destas circunstâncias, muitas das questões previamente elaboradas não puderam ser aplicadas. Por exemplo, sobre as especificidades das relações de sociabilidade na escola de samba, no baile funk e no hip hop, principalmente em termos da dimensão intergeracional; sobre as ligações destas práticas com o crime organizado; sobre o papel assumido pela religião em um contexto dominado pelo tráfico; sobre as relações históricas entre sambistas e capoeiras, bicheiros e traficantes. Todas reflexões muito importantes no seu trabalho.
A Universalização Pentecostal
ALMEIDA, Ronaldo de. A Igreja Universal e seus demônios: um estudo etnográfico. Editora Terceiro Nome. São Paulo, 2009
O livro A Igreja Universal e seus demônios une a profundidade do olhar etnográfico ao rigor histórico e à análise sistemática de dados estatísticos, configurando um quadro contextual da expansão das igrejas pentecostais brasileiras, tendo como centro as práticas rituais da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). O texto do antropólogo Ronaldo de Almeida, é um desdobramento de sua dissertação de M estrado defendida na Unicamp em 1996, bem como o resultado de pesquisas que realizou junto ao Centro de Estudos da Metrópole (CEM).
1968: Ditadura Abaixo
URBAN, Teresa. 1968: Ditaduras Abaixo. Editora Arte e Letra. Curitiba:2008.
O livro, conforme se pode ler na apresentação, foi escrito por uma avó para seus netos: com esta informação, seria de esperar uma história contada ao pé da lareira, recheada de seres fantásticos, utopias, heróis, batalhas. Tal impressão é, em parte, verdade: só que a avó é Teresa Urban, militante de esquerda, presa política nos anos da repressão, jornalista com passagens pela revista Veja, pelo Estadão e pelo Jornal do Brasil, entre outros veículos de comunicação, e, atualmente, escritora e ativista de causas ambientais. E a história que ela conta em 1968 Ditadura Abaixo tem, sim, heróis, batalhas, ideais, ainda que o contexto não seja propriamente o de conto de fadas: com base em documentos, fotos, recortes de jornais, depoimentos, fichas do DOPS, cartazes e folhetos da época, Teresa constrói um vivo relato dos eventos políticos protagonizados por jovens de sua geração, no ano de 1968, no Paraná, e, especialmente na capital, Curitiba.